A Disputa
Inesperadamente, não tão inesperadamente assim, o Dr. Menezes resolveu refugiar-se em Gaia, e por isso mesmo, os e as laranjinhas em curto espaço de tempo arrostam com mais uma campanha onde os candidatos oscilam entre a vacuidade, a vanidade e o velho vício de quererem agradar a gregos e a troianos de modo a fazerem o pleno. Com uma excepção. Além disso algumas famílias laranjas continuam a praticar o truque de colocarem peças em todos os tabuleiros de modo a nunca perderem o jogo ou pelo menos a estarem dentro das jogadas. O espectáculo não é edificante, os actores principais nem disfarçam aquilo que os move, os secundários esforçam-se na imitação e na tentativa de passarem à primeira categoria e depois temos os figurantes do costume sempre dispostos a serem cavalgados desde que fiquem na fotografia e/ou participem na refeição do candidato a príncipe. Nestas circunstâncias é difícil tomar-se uma posição pautada pela razão tendo como base a astúcia da razão, mas estando em causa o bom-nome do partido, o facto de ele ser elemento fundamental para o sistema democrático e o poder-se colocar ao alcance da sociedade em geral uma alternativa capaz – vamos ver se isso é possível – é obrigatório escolher-se de modo a consciência não rugir de fúria e desagrado. Por todas as razões e mais algumas nunca votaria em Pedro Santana Lopes, devido à sua inconstância e desastrada actuação enquanto primeiro-ministro a dar ensejo a Jorge Sampaio o despedir, outras circunstâncias impedem-me escolher Pedro Passos Coelho – nunca lhe ouvi uma ideia consistente, estruturada e reflectida, discordo da sua peregrina ideia de ser óptimo não ter experiência governativa, para além do brilho e consistência do penteado não apresenta um credo pedagógico de teoria política capaz de me agradar. Por exclusão de partes resta-me a alternativa – Manuela Ferreira Leite. Bem sei: chamam-lhe velha, teimosa e pouco fotogénica. Não cabem numa página deste jornal os estadistas e políticos muito mais velhos do que ela cuja acção foi excepcional, quanto à teimosia em não ceder a demagogias, a elogiar quem merece ser elogiado, em ser amiga do seu amigo e cortar a direito são qualidades do meu agrado, no referente à fotogenia sabemos bem quais foram os resultados provenientes das interpretações de dirigentes convencidos que bastava colocar na cabeça um lenço à pirata ou mudar de corte de cabelo e fatiota a condizer para ganharem o poder. A verdade muitas vezes é amarga: o PSD corre sérios riscos de passar a irrelevante agrupamento partidário se persistir numa trajectória pautada pelo tacitismo, a farândola e o nacional-porreirismo. A obra densa e fecundante está nos antípodas da prática da facilidade. Acreditem!

