Cuba, Mea Cuba!
O meu artigo radicava no facto de terem sido presos em Cuba diversos dissidentes, e de ter tido o grato prazer de por um acaso ver de perto em Londres o autor do extraordinário livro “Três Tristes Tigres”, Guillermo Cabrera Infante ali exilado, apenas devido a permitir-se questionar a política anti-democrática de Fidel. Olhei-o longamente, era uma figura alentada, usava óculos redondos muito graduados, comprávamos charutos. Fiquei fascinado pela sua aparição, comentei para quem estava ao meu lado a importância deste tremendo escritor, paguei os charutos e desandei dizendo para comigo mesmo – nunca mais vais ter o prazer de o ver. Em compensação releio os seus livros, em particular “Mea Cuba” testemunho do seu acrisolado amor à Pátria, e desassombrado documento a revelar as torpezas da clique castrista, especialmente a de lastro intelectual. Entretanto Cabrera Infante morreu sem voltar a contemplar a sua querida Cuba apenas por preferir a heterodoxia à vulgata fidelista, e o ditador adoeceu sendo obrigado a resignar no irmão à boa maneira das monarquias absolutistas. Só que o irmão ou por astúcia, ou por perceber os sinais dos tempos abriu uma nesga do postigo das liberdades permitindo aos cubanos comprarem coisas tão prosaicas como micro-ondas, discos e banais produtos considerados como acessíveis às pessoas de todas condições. Repito: de todas as condições. O general Raul Castro já chegou ao ponto de autorizar os cubanos a viajarem para o estrangeiro, desmentindo desta forma os arautos da propaganda pró-Castro. Sem qualquer espécie de surpresa os ditos cujos refugiaram-se no silêncio, seria insultuoso dizerem desconhecer tão triste realidade, pois os tempos são bem diferentes da época em que o Ocidente tomou conhecimento preciso, profundo e oficial dos crimes de Estaline, revelados no conhecido “Relatório Secreto de Nikita Kruchtchev, enchendo de vergonha intelectuais fingidores e amantes daquele regime totalitário. Ao trazer à colação esta evidência – boa evidência – diga-se em abono da verdade da nova vida cubana, não estou animado por nenhum sentimento de revanche, limito-me a lembrar os factos na esperança de suscitar nova resposta do actor-encenador ou de outros emprenhados adeptos de Fidel. Nós não temos a possibilidade de adivinhar o futuro, no entanto, fazendo uma previsão é bem possível estarem os cubanos a caminho de uma democracia plena pela mão de Raul Castro, evitando-se desta forma um banho de sangue ou de violência quando se desse a derrocada do regime como aconteceu na Roménia. Todos sabemos dos crimes perpetrados por Che Guevara, sabemos igualmente da existência de milhares de cubanos fugidos para Miami, roídos por pulsões vingativas e retaliadoras. O viver em Cuba nunca foi um jardim das delícias, não devemos esquecer o nefando sargento Batista – morreu tranquilamente no exílio madeirense – nem o modo como os americanos tratavam e entendiam os cubanos, por essas razões e porque todos os povos têm direito ao seu quinhão de felicidade, desejo aos habaneros um caminhar caminhando – António Machado dixit – na senda da liberdade e aos carcereiros do pensamento um “mea” culpa. É pedir muito?

