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	<title>Arquivo de Nuno Pires - Nordeste</title>
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	<title>Arquivo de Nuno Pires - Nordeste</title>
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		<title>A Banda é a Alma da Festa</title>
		<link>https://jornalnordeste.com/2026/06/05/a-banda-e-a-alma-da-festa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2026 09:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Pires]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na nossa região em particular e no país em geral, quando a primavera se faz sentir e o calor a aproximar-se, começam os acontecimentos festivos que animam as nossas comunidades</p>
<p>O conteúdo <a href="https://jornalnordeste.com/2026/06/05/a-banda-e-a-alma-da-festa/">A Banda é a Alma da Festa</a> aparece primeiro em <a href="https://jornalnordeste.com">Nordeste</a>.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Na nossa região em particular e no país em geral, quando a primavera se faz sentir e o calor a aproximar-se, começam os acontecimentos festivos que animam as nossas comunidades, quer no meio urbano, quer no meio rural. Mas, na aldeia, a festa anual merece sempre uma referência e um espírito de entusiasmo e identidade, muito particular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dia de festa, numa aldeia, é o maior acontecimento social do ano. Potencia entusiasmo e dinamismo como nenhum outro festivo. A mobilização é geral, com efeitos especiais tanto na terra como nas localidades vizinhas. Vive-se e sente-se. Reflete a união de uma comunidade em torno do mesmo objetivo, em respeito pelas tradições locais e religiosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das tradições que mais ambiente potencia será, certamente, a presença de uma banda filarmónica. Na minha aldeia, a festa não acontece sem ela. Recordo-me de acordar, ainda criança, na manhã da festa ao som melodioso da banda a percorrer as ruas, com o estoirar dos foguetes. O encantamento da música e a euforia da pólvora davam uma animação singular à povoação. A imagem dos mordomos à frente da banda e a garotada atrás, ainda perdura na minha memória, como perdurará na de muitos “jovens” do meu tempo. Para mim, a banda é o símbolo da identidade de uma festa de aldeia, ou vila rural. Pelo menos no meio onde cresci. Recordo um dos anos em que fui responsável pela festa e, por lapso, ficou uma casa sem músico atribuído.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era, e continua a ser, tradição cada agregado familiar hospedar pelo menos um músico. A reação não foi positiva. O chefe da família fez questão de mostrar o descontentamento. O prestígio de uma casa/família passa, também, por hospedar um músico no dia da festa. Desde logo, para “matar-o-bicho” pela manhã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois, a Procissão sem a solenidade de uma filarmónica não é a mesma coisa. A presença da banda confere outra dignidade ao ato religioso. Ajuda a promover a concentração dos fiéis que, muitas vezes, sem algo que os motive, perdem a noção do contexto e o respeito pelo sagrado. O silêncio deve imperar religiosamente na manifestação de fé de uma Procissão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após as celebrações, que devem ser a parte mais importante das festividades, é tão agradável ouvir, junto à capela ou ao adro da igreja, umas “penadas” da banda, como o meu pai dizia, com frequência. Até dá a ideia que o som prolonga o bem-estar da Eucaristia. Não pode ser esquecida a cerimónia da Entrega da Festa aos novos mordomos, com a banda a percorrer, de novo, as ruas do burgo, como que a jeito de despedida. Um cenário de pura tradição rural, sem igual, que promove a interação positiva e a harmonia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebo que os tempos mudam e as vontades são outras, mas continuo a guardar na memória os arraiais com a banda a tocar à noite, à luz dos candeeiros a petróleo, ou das fracas lâmpadas elétricas alimentadas por gerador, cujo motor por vezes avariava. Foram tempos que não voltam. Mas espero e desejo que a banda filarmónica volte todos os anos à festa da minha aldeia, tal como eu pretendo voltar enquanto puder. Até agora, marquei sempre presença com alegria e bem-estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para terminar, deixo os meus parabéns a todas as pessoas que contribuem para manter vivas as nossas bandas filarmónicas e a todas as comissões de festas que apostam na sua contratação. Assim se faz o desenvolvimento cultural da nossa região.</p>
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		<title>Valorizemos o que é NOSSO</title>
		<link>https://jornalnordeste.com/2026/05/27/valorizemos-o-que-e-nosso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 13:27:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Pires]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta sociedade moderna e globalizada, a facilidade de importar produtos de origens distantes, embalados por campanhas publicitárias agressivas e preços de ocasião, asfixia lentamente as economias locais</p>
<p>O conteúdo <a href="https://jornalnordeste.com/2026/05/27/valorizemos-o-que-e-nosso/">Valorizemos o que é NOSSO</a> aparece primeiro em <a href="https://jornalnordeste.com">Nordeste</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nesta sociedade moderna e globalizada, a facilidade de importar produtos de origens distantes, embalados por campanhas publicitárias agressivas e preços de ocasião, asfixia lentamente as economias locais. Tornou-se uma prova de resistência afirmar e manter vivos os produtos da nossa terra, da nossa região, da nossa aldeia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dificuldade agrava-se quando pomos lado a lado o custo de produção, o preço final, a qualidade real e até a simples apresentação na prateleira. Na grande distribuição, o que brilha mais nem sempre é o melhor. Nesta teia de consumo desenfreado, parece valer tudo para atingir o lucro fácil e imediato. A especulação manda. E muitas vezes nem os riscos para a saúde pública são ponderados. Conservantes a mais, origem a menos, sabor nenhum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não surpreende, por isso, que muitos produtos tradicionais estejam em vias de extinção. Alguns já se extinguiram sem que déssemos conta. Levámos da mesa o que nos ligava à terra e aos avós. Os hábitos alimentares modernos também não ajudam: trocámos o genuíno pelo prático, o nutritivo pelo processado, o tempo de cozer pelo micro-ondas. Mas deviam ajudar. A mudança começa no carrinho de compras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Promover de forma sustentável os produtos da terra é tarefa dura, ingrata até. Mesmo quando lhes reconhecemos qualidade gastronómica singular, esbarramos na logística, na burocracia, na escala. Ora, a alimentação é parte essencial da nossa economia, da nossa cultura e da nossa história. Não é acessório. É identidade. Valorizar o que é nosso é valorizar o que nos identifica e pode projetar-nos noutras zonas do país e do mundo. Um queijo, um vinho, um azeite bem contados valem mais que mil folhetos de turismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É verdade que trabalhamos numa escala pequena. As nossas leiras não são latifúndios, os nossos rebanhos não enchem autoestradas. Mas é precisamente aí que ganhamos. Em qualidade e genuinidade, a nossa agricultura “dá cartas” à produção industrial. Há produtos que nunca poderão ser comparados, porque nascem de um clima único, de um solo pobre que dá riqueza, e de um saber-fazer que passou de mão em mão. Isso não se replica em estufa, não se programa em linha de montagem, não se apressa com adubo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem me conhece sabe bem o que penso e o “fundamentalismo” com que defendo os produtos regionais. Não é teimosia, é convicção. Reconheço que há regras europeias, nacionais e municipais que constrangem a produção, a comercialização e até o uso tradicional dos nossos alimentos. Matar o porco em casa, curar o salpicão no fumeiro de lareira, vender a couve da horta na praça, tudo ficou mais difícil. Tenho consciência de que temos um longo caminho na preservação da nossa alimentação regional. Mas acredito que podemos melhorar, e muito, a imagem do que produzimos e consumimos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro passo é simples e está na mão de cada um: consumir o que os nossos agricultores, pastores e artesãos produzem. Dar-lhe valor próprio, pagar o preço justo, sem regatear o trabalho de meses. Alimentar a economia local é alimentar o vizinho, o primo, o amigo que ainda teima em ficar na terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se temos azeite de qualidade mundial, batata de sabor antigo, vinho que conta histórias, castanha que alimenta e aquece, carne mirandesa criada no lameiro, fumeiro de porco bísaro e tantas outras espécies autóctones, por que razão havemos de preteri-los por híbridos vulgarizados, pela tal “comida de plástico” que enche os carrinhos e esvazia a saúde? Não há razão. Só hábito. E hábitos mudam-se à mesa, com garfo e faca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem não gosta de um butelo com casulas no inverno, de uma posta à transmontana, de um salpicão ou presunto cortado à mão, de um bom vinho tinto que mancha a toalha, ou de untar grão com bacalhau no azeite das nossas oliveiras seculares? Quem não se lembra do cheiro da bola quente de azeite, ou do mel das nossas abelhas? Se a preferência é clara, se a boca ainda tem memória, então façamos a nossa parte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consumir, divulgar e ajudar a promover os nossos produtos não é só tarefa do Estado nem da Câmara. É nossa. Levar um amigo a provar, oferecer um cabaz no Natal, pedir o prato da terra no restaurante, onde não falte o o nosso &#8220;ouro da terra&#8221; ou o singular néctar dos deuses, perguntar a origem dos produtos a quem nos atende ou ao vendedor que nos entende. Pequenos gestos que seguram uma economia inteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valorizar o que é nosso não é saudosismo bacoco nem bairrismo cego. É futuro. É garantir que os nossos filhos ainda conhecem o sabor de uma maçã, que não vem do outro lado do mundo. É manter aldeias vivas, paisagens cuidadas e pessoas com orgulho no que fazem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque no fim, a terra aguenta tudo. Menos o esquecimento. E o esquecimento, esse sim, parte sem remédio.</p>
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		<item>
		<title>&#8220;Burros&#8221; não seremos nós… Os Nordestinos!…</title>
		<link>https://jornalnordeste.com/2026/05/21/burros-nao-seremos-nos-os-nordestinos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 May 2026 18:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Pires]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No passado dia 8 de maio, celebrou-se o "Dia Internacional do Burro", pelo que se falou a preceito deste animal a seu jeito. Eu falo dos homens.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">No passado dia 8 de maio, celebrou-se o &#8220;Dia Internacional do Burro&#8221;, pelo que se falou a preceito deste animal a seu jeito. Eu falo dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nasci no Nordeste Transmontano. Cresci ao lado da ribeira, entre hortas, olhos, lameiros e caminhos de terra, onde o burro era rei, tal como em muitos outros territórios transmontanos. Puxava o carro, a charrua, o arado, carregava lenha para o inverno, água da fonte, o avô doente para a vila Era motor, companhia, família. Chamavam-lhe teimoso. Eu chamava-lhe prudente. Um burro não dá um passo sem medir o chão. Não avança para o precipício. Quem dera a muita gente ter o mesmo juízo.<br>Veio a chamada “revolução mecânica”. O trator entrou de rompante, o burro saiu em silêncio. Mesmo com subsídios da Europa e projetos da AEPGA, o Burro de Miranda definha. É raça autóctone, única, inteligente, dócil. Está classificada como em vias de extinção. Deixamos morrer o único burro 100% português enquanto gastamos milhões a importar “modernidade” que não chega aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O New York Times já lhe dedicou páginas. Uns viram um animal protegido, símbolo de uma ruralidade perdida. Outros leram nas entrelinhas um duplo sentido. E leram bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque, neste recanto de Portugal, convivemos com o burro há séculos. Conhecemos-lhe o valor, a força, a dignidade. Também sabemos ler quando nos querem fazer de burros.<br>E tantas tentam fazer. Todos os dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Promessas democráticas ficaram presas na A1. Os investimentos também. Aqui, assistimos impávidos à desertificação programada. Fecham escolas porque “não há crianças”. Fecham centros de saúde porque “não há utentes”. Cortam linhas de comboio porque “não dá lucro”. Cortam futuro porque não dá votos. Os números do INE envergonham: o PIB per capita de Terras de Trás-os-Montes é metade do de Lisboa. Somos dos mais pobres da Europa rica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contra factos não há argumentos. Só há abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os que teimam em sobreviver no Nordeste não são uma “espécie” em extinção. Porém, somos portugueses com Bilhete de Identidade igual ao de quem mora na Avenida da Liberdade. A Constituição não prevê cidadãos de primeira e de segunda. O país é que pratica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Continuamos incrédulos perante este abismo socialmente discriminatório. Mas burros, não. Recusamos o papel.<br>&#8220;Burros&#8221; serão os que cultivam a nossa interioridade como se fosse destino natural. Os que assinam despachos em gabinetes com ar condicionado e nos condenam ao isolamento. Os que falam em coesão territorial nos congressos e depois adiam, cortam ou votam contra obras como o IP2 completo, hospitais de proximidade ou regadio. A esses, sim, deveria aplicar-se o nome. E deveria aplicar-se a responsabilização política.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao Burro Mirandês devemos respeito, proteção e um plano de salvação a sério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao nordestino devem respeito, investimento e o direito a não emigrar para viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Feliz Dia Internacional do Burro. Aos de quatro patas que nos ensinaram a prudência. E, &#8220;a outros&#8221;, que recusamos baixar a cabeça.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O país deve ao seu interior Justiça Energética para Trás-os-Montese Alto Douro</title>
		<link>https://jornalnordeste.com/2026/05/13/o-pais-deve-ao-seu-interior-justica-energetica-para-tras-os-montese-alto-douro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 10:34:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Pires]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Trás-os-Montes e Alto Douro movem o país. Esta região concentra mais de metade da potência hídrica nacional.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://jornalnordeste.com/2026/05/13/o-pais-deve-ao-seu-interior-justica-energetica-para-tras-os-montese-alto-douro/">O país deve ao seu interior Justiça Energética para Trás-os-Montese Alto Douro</a> aparece primeiro em <a href="https://jornalnordeste.com">Nordeste</a>.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Trás-os-Montes e Alto Douro movem o país. É facto, não retórica. Das barragens de Miranda, Picote e Bemposta no Douro Internacional, ao Alto Lindoso, Baixo Sabor e Foz Tua, esta região concentra mais de metade da potência hídrica nacional. Acrescentem-se os parques eólicos do Marão, Alvão, Nogueira e Bornes, onde o vento rende kilowatt após kilowatt. É luz para Lisboa e Porto. É força para a indústria exportadora. É estabilidade para a rede europeia. É soberania energética que nasce entre fragas, rios e serras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas há uma fratura que o país insiste em ignorar. O interior transmontano entrega tudo isto e recebe de volta despovoamento, estradas adiadas e serviços que fecham. E paga, todos os meses, a mesma fatura de eletricidade de quem vive num clima temperado à beira-mar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui as amplitudes térmicas são brutais. Invernos de vários meses abaixo de zero obrigam a aquecer a casa dia e noite. Verões de 40 graus exigem arrefecimento para trabalhar e dormir. O resultado é uma fatura energética desproporcional sobre famílias, idosos e pequenos negócios que já lutam para se manter de pé. É o transmontano a suportar o custo climático sem usufruir do benefício económico da energia que produz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, reivindica-se um ato elementar de justiça: discriminação positiva na fatura da eletricidade para os residentes e empresas de Trás-os-Montes e Alto Douro. Não é esmola nem favor. É compensação. É reconhecer que este território dá água, vento, paisagem e segurança energética ao país inteiro, enquanto arca sozinho com um sobrecusto que deriva da sua geografia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma tarifa reduzida para o interior produtor não é despesa pública. É investimento estratégico. Alivia encargos e fixa pessoas. Reduz custos de operação e atrai serviços. Devolve rendimento a quem mantém vivas as aldeias, as serras e as infraestruturas que iluminam Portugal. É demografia, é coesão, é economia.<br>Contudo, falta voz. Falta acutilância de quem representa a região em Lisboa. Assiste-se a um silêncio cúmplice ou a intervenções mornas quando se discute o Orçamento, o Plano de Recuperação, a fiscalidade ou a energia. Os eleitos pelo distrito raramente impõem a agenda do interior com a firmeza que o contributo energético da região exige. Negocia-se pouco, exige-se menos, aceita-se quase tudo. E o resultado está à vista: o Douro dá a energia, o litoral dita as regras, e o transmontano paga a conta duas vezes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É tempo de mudar o tom. O peso hidrelétrico e eólico de Trás-os-Montes e Alto Douro tem de se traduzir em peso político. Em exigência de contrapartidas. Em medidas concretas que corrijam assimetrias. A justiça tarifária é a primeira delas. Porque um país que se diz coeso não pode continuar a tratar o seu motor energético como periferia esquecida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Douro não para. O vento não para. A produção não para. A paciência do interior também tem limite. É hora de Lisboa ouvir. É hora de pagar a dívida energética ao território que nunca falhou ao país.</p>
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		<item>
		<title>Quando o jogo tinha raiz na terra</title>
		<link>https://jornalnordeste.com/2026/05/07/quando-o-jogo-tinha-raiz-na-terra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2026 08:41:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Pires]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem não se lembra, sobretudo a rapaziada do meu tempo, das horas livres gastas a jogar o que vinha de trás, regra passada de boca em boca, memória guardada no jeito das mãos? </p>
<p>O conteúdo <a href="https://jornalnordeste.com/2026/05/07/quando-o-jogo-tinha-raiz-na-terra/">Quando o jogo tinha raiz na terra</a> aparece primeiro em <a href="https://jornalnordeste.com">Nordeste</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Quem não se lembra, sobretudo a rapaziada do meu tempo, das horas livres gastas a jogar o que vinha de trás, regra passada de boca em boca, memória guardada no jeito das mãos? Nessa altura, tradicional e popular eram irmãos de sangue. A tradição vivia-se no corpo do povo, e por isso era naturalmente popular. Cheirava a domingo, a dia de festa, a fim de tarde depois da segada, ou à hora do calor em que o sol mandava parar e a sombra das árvores chamava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembro-me como se fosse hoje. A malta juntava-se junto à ribeira da minha terra, onde a água corria a contar segredos às pedras. Ali, debaixo dos olmos grandes, que agora já são saudade, e dos freixos que vergavam para ver o jogo, acontecia a magia. Ali se jogava o fito, a relha, o calhau por baixo e por cima, a bilharda, a palmada, o esconde-esconde. Tudo tinha chão de terra batida, sem alcatrão, sem paralelo, sem betão a queimar os pés. Só erva rente, pó fino que se levantava no riso, e raiz de árvore a servir de banco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Havia três terreiros para o fito. Um para os homens feitos, outro para os moços, outro para os garotos. Cada um com o seu olmo a fazer de torre e a Ponte românica ali perto, a dividir as águas para não haver desgraça. As pedras, muitas vezes, vinham do leito da ribeira, escolhidas a dedo. Frias, lisas, cheias de rio. Polidas pelo uso e pela corrente, assentavam na palma como se tivessem nascido ali. E havia malandrice sã: partir a pedra do outro era meio caminho para ganhar, porque sem pedra certa a pontaria já falhava. O som da pedra a bater na outra ecoava na folhagem e os pássaros respondiam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A macaca e as pedrinhas, eram reino das meninas. Riscava-se no chão de terra com um pau de amieiro, olmo ou freixo, e o desenho ficava lá até à próxima chuva. O riso delas misturava-se com o marulhar da água e fazia música sem rádio. Havia idade para cada jogo, sem ninguém mandar. Dos miúdos aos avós, todos tinham vez. A sombra andava com o sol, e nós com ela. Mil histórias se passavam ali. Quedas na relva, batotas desmascaradas atrás do tronco, vitórias festejadas com a cara enfiada na ribeira a beber. Aquilo unia. Aquilo era praça, era adro, era vida em comum. Até o adro da igreja servia, quando as acácias velhas davam sombra boa para o pião e para a palmada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois veio a debandada. A aldeia ficou com menos gente, muito menos, e o mundo trouxe ecrã para a mão de cada um. A tecnologia entrou, a cultura mudou de fato, e o jogo de antigamente perdeu boleia. Os senhores do cinzento também ajudaram. Onde havia sombra, alguns, puseram telhados de zinco. Onde havia terra que respirava, estenderam alcatrão que sufoca. Onde havia árvores, que contavam anos nos anéis, plantaram postes. E assim, devagar, o tradicional deixou de ser popular. Porque popular é o que o povo usa. E o povo, sem árvore e sem chão, usa menos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, quem quiser atirar ao fito ou à relha tem de procurar canto escondido, longe do paralelo que estala no verão. Já não se joga no centro, porque o centro já não tem sombra que acolha. É só pedra morta, quente, sem história. Ainda bem que, na minha pequena aldeia, com história, a ribeira ainda corre e a ponte, o pelourinho, o cruzeiro e o moinho, ainda guardam memória. Ainda há amieiros para encostar e terra para riscar. Mas não é assim em todo o lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não, não basta trazer os jogos uma vez por ano, em dia de festa, para a fotografia. Isso é regar árvore seca com conta-gotas. O que faz falta é chão vivo. Chão de terra, com árvore a dar sombra certa, com raiz à mostra para tropeçar e rir, com banco de pedra tosca para quem vê, com regra escrita num seixo para quem não sabe. Espaço feito de propósito, sem betão nos pés, onde miúdo, pai e avô possam jogar lado a lado, como se fazia. Só assim a vontade pega. Só assim a identidade cria raiz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque um povo sem jogo é como moinho sem água. Está lá, bonito, mas não mói. E nós precisamos de moer memória para fazer farinha de futuro. Precisamos do cheiro da ribeira a entrar pelo nariz enquanto a pedra voa. Precisamos da magia da sombra que muda o jogo quando o sol muda. Se não dermos terreiro à tradição, ela fica só em livro. E livro na prateleira não faz rir, não faz suar, não faz amigo, não cheira a hortelã pisada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso digo: devolvam-nos a terra, devolvam-nos a árvore, devolvam-nos a sombra. O resto, a gente trata. A gente ensina, a gente joga, a gente passa. Como sempre se fez, de mão em mão, de pedra do rio em pedra do rio, de ponte românica a ponte românica, com os pés na terra, que é nossa.</p>
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		<title>Abril não é museu. É compromisso com o futuro</title>
		<link>https://jornalnordeste.com/2026/04/30/abril-nao-e-museu-e-compromisso-com-o-futuro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 15:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Pires]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como diz a canção, tudo são recordações. E, como recordar é viver, no 52.º aniversário do 25 de Abril apetece-me revisitar a “minha” revolução de 1974. </p>
<p>O conteúdo <a href="https://jornalnordeste.com/2026/04/30/abril-nao-e-museu-e-compromisso-com-o-futuro/">Abril não é museu. É compromisso com o futuro</a> aparece primeiro em <a href="https://jornalnordeste.com">Nordeste</a>.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Como diz a canção, tudo são recordações. E, como recordar é viver, no 52.º aniversário do 25 de Abril apetece-me revisitar a “minha” revolução de 1974. Lembro bem aquela manhã. A juventude florescia. A comunicação era um velho rádio Grundig, sem FM, que ainda guardo no meio rural. Tem magia e memória. Estranhei que o Programa da Manhã da Renascença não entrasse no ar como sempre. Mas cumpri a rotina e fui para o Liceu Nacional de Bragança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada parecia anormal entre os estudantes. Bragança ficava e fica longe de Lisboa, e a informação não corria como hoje. As aulas começaram às 08h30. Sala n.º 2, rés-do-chão, Português com o Dr. Luís Cangueiro, ilustre mirandês hoje ligado ao seu singular museu de música mecânica. A aula seguia normal. Até entrar o Dr. Eduardo de Carvalho. Com semblante grave, anunciou: Portugal vivia uma revolução. Tinha chegado a liberdade. Ali, deu-nos a primeira lição de democracia. Nunca a esqueci.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim e para quase toda a rapaziada do liceu, foi surpresa que virou euforia. Nada ficaria igual. O grito de liberdade ganhava força. A democracia dava passos todos os dias. O 25 de Abril tornou-se data maior de Portugal. Do resto já muito se disse. Das manifestações em Bragança e noutras terras, do progresso sonhado, da liberdade vivida, por vezes com excessos de rebeldia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recordar esse passado é sublinhar a importância de Abril. Só quem o viveu mede o seu significado. Sobretudo jovens como eu, vindos do meio rural esquecido, onde tudo faltava. Muitas aldeias não tinham telefone. Faltava estrada, água canalizada, saneamento e luz elétrica. O analfabetismo travava o desenvolvimento. O trabalho agrícola era duro e pouco produtivo. Mandar um filho estudar na cidade exigia sacrifício. Ensino superior era privilégio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na minha aldeia não havia “nada”. Ruas de terra batida, água só nas fontes e na ribeira. Estrada, luz e saneamento chegaram depois. São conquistas de Abril, sim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comparando esses tempos com hoje, a evolução foi imensa. A modernidade atual não se parece com aquele passado que ainda soa próximo. Mas a memória não basta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abril deu-nos direitos, mas também deveres. Deu-nos voto, escola, saúde, estradas. Deu-nos a hipótese de sair da terra batida. Hoje o risco é outro: transformar Abril em feriado bonito e esvaziar-lhe o conteúdo. A democracia não vive de nostalgia. Vive de participação, de exigência, de combate à desigualdade que teima em mudar de rosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fica o passado, saboreia-se o presente. Mas Abril exige futuro. Um país onde a justiça impere, o mérito se reconheça e a liberdade não seja só palavra de cartaz. Se falharmos isso, traímos o Dr. Eduardo de Carvalho e aquela manhã na sala n.º 2.<br>Abril não é museu. É trabalho por fazer.</p>
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