Moral da história…
Opinião

Moral da história…

  • 22 de Maio de 2026, 09:40

Era uma vez um porteiro de um organismo importante, daqueles onde se decidem coisas importantes e onde toda a gente vai tratar assuntos também importantes.

Um dia aparece alguém que queria ser recebido, mas era dos que não gostam de esperar pela sua vez. Sabia que o porteiro lhe podia facilitar a entrada e, sem ser visto, evitar filas e acelerar prazos. Para isso, ofereceu-lhe uma nota das grandes.

O porteiro olhou para o dinheiro e de imediato percebeu que era o suficiente para comprar a bicicleta que há muito tempo promete ao filho. Pensou na alegria daquele sorriso, no brilho nos olhos, no abraço feliz sempre que passavam junto daquela montra.
Podia aceitar. Afinal, era só deixar passar uma pessoa à frente. Não vinha mal ao mundo e havia uma razão que, moralmente, muita gente compreenderia.

Mas o porteiro recusou. Fê-lo porque sabia que aceitar seria errado. Fê-lo porque, independentemente da sua frágil circunstância, preferiu escolher o que a sua consciência lhe ditou. E essa escolha diz-nos muito sobre a diferença entre moral e ética.

Moralmente, talvez muitos compreendessem se ele aceitasse. Afinal, tratava-se de um homem humilde, a passar dificuldades, e com vontade de fazer feliz o seu filho, de cumprir uma promessa que há muito lhe escapa, não por ser incumpridor, mas porque a vida não lho permite. Aos olhos de muitos, seria apenas um pequeno gesto sem consequências.

A moral geralmente acomoda-se às circunstâncias, relativiza, adapta-se aos contextos e às culturas. O que é moralmente aceite aqui pode ser condenado noutro qualquer lugar. O que vemos como aceitável pode ser radicalmente condenável para outros. A ética é diferente. A ética exige maisde nós. Obriga-nos a fazer o que está certo, mesmo quando ninguém nos condena se fizermos o contrário.

Alguém disse um dia que “a ética é obediência àquilo que não é obrigatório…”. A frase é tão simples, mas ao mesmo tempo tão crua e arrebatadora. Faz-me pensar desde o dia em que a ouvi e temo ainda não lhe ter conseguido perceber todo o alcance. Talvez porque seja mais fácil escolher o conveniente, aquilo que é moralmente aceite e socialmente esperado.

Muitas vezes preocupo-me mais com a forma como os outros olham para mim, com a imagem que passo, do que propriamente com aquilo que estaria certo fazer. Às vezes fazemos o que nos parece correto aos olhos dos outros, mas isso não é o mesmo que fazer o que está certo. Quantas decisões tomamos sem acreditar verdadeiramente nelas, apenas porque tememos parecer errados? Quantas vezes colocamos a imagem que os outros têm de nós acima das decisões que sabemos serem certas?

A ética não vive de aplausos nem de reconhecimento. Não se mede pelos benefícios ou recompensas que traz. Resume-se a fazer o que está certo. E, muitas vezes, isso significa colocar o interesse coletivo acima do interesse individual.

Admiro aquele homem. Admiro aquele pai. Abdicou do sorriso e da alegria imensa, do brilho impagável nos olhos do seu filho, para lhe dar uma lição muito maior. O filho ainda não a vai entender. Ensinou-lhe, e ensinou-me, que há coisas que não se compram, por mais pequeno que pareça o preço a pagar por elas.

Admiro-o porque não aceitou… mas ter-lhe-ia perdoado!

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Redação