Quando o jogo tinha raiz na terra
Opinião

Quando o jogo tinha raiz na terra

  • 7 de Maio de 2026, 08:41

Quem não se lembra, sobretudo a rapaziada do meu tempo, das horas livres gastas a jogar o que vinha de trás, regra passada de boca em boca, memória guardada no jeito das mãos? Nessa altura, tradicional e popular eram irmãos de sangue. A tradição vivia-se no corpo do povo, e por isso era naturalmente popular. Cheirava a domingo, a dia de festa, a fim de tarde depois da segada, ou à hora do calor em que o sol mandava parar e a sombra das árvores chamava.

Lembro-me como se fosse hoje. A malta juntava-se junto à ribeira da minha terra, onde a água corria a contar segredos às pedras. Ali, debaixo dos olmos grandes, que agora já são saudade, e dos freixos que vergavam para ver o jogo, acontecia a magia. Ali se jogava o fito, a relha, o calhau por baixo e por cima, a bilharda, a palmada, o esconde-esconde. Tudo tinha chão de terra batida, sem alcatrão, sem paralelo, sem betão a queimar os pés. Só erva rente, pó fino que se levantava no riso, e raiz de árvore a servir de banco.

Havia três terreiros para o fito. Um para os homens feitos, outro para os moços, outro para os garotos. Cada um com o seu olmo a fazer de torre e a Ponte românica ali perto, a dividir as águas para não haver desgraça. As pedras, muitas vezes, vinham do leito da ribeira, escolhidas a dedo. Frias, lisas, cheias de rio. Polidas pelo uso e pela corrente, assentavam na palma como se tivessem nascido ali. E havia malandrice sã: partir a pedra do outro era meio caminho para ganhar, porque sem pedra certa a pontaria já falhava. O som da pedra a bater na outra ecoava na folhagem e os pássaros respondiam.

A macaca e as pedrinhas, eram reino das meninas. Riscava-se no chão de terra com um pau de amieiro, olmo ou freixo, e o desenho ficava lá até à próxima chuva. O riso delas misturava-se com o marulhar da água e fazia música sem rádio. Havia idade para cada jogo, sem ninguém mandar. Dos miúdos aos avós, todos tinham vez. A sombra andava com o sol, e nós com ela. Mil histórias se passavam ali. Quedas na relva, batotas desmascaradas atrás do tronco, vitórias festejadas com a cara enfiada na ribeira a beber. Aquilo unia. Aquilo era praça, era adro, era vida em comum. Até o adro da igreja servia, quando as acácias velhas davam sombra boa para o pião e para a palmada.

Depois veio a debandada. A aldeia ficou com menos gente, muito menos, e o mundo trouxe ecrã para a mão de cada um. A tecnologia entrou, a cultura mudou de fato, e o jogo de antigamente perdeu boleia. Os senhores do cinzento também ajudaram. Onde havia sombra, alguns, puseram telhados de zinco. Onde havia terra que respirava, estenderam alcatrão que sufoca. Onde havia árvores, que contavam anos nos anéis, plantaram postes. E assim, devagar, o tradicional deixou de ser popular. Porque popular é o que o povo usa. E o povo, sem árvore e sem chão, usa menos.

Hoje, quem quiser atirar ao fito ou à relha tem de procurar canto escondido, longe do paralelo que estala no verão. Já não se joga no centro, porque o centro já não tem sombra que acolha. É só pedra morta, quente, sem história. Ainda bem que, na minha pequena aldeia, com história, a ribeira ainda corre e a ponte, o pelourinho, o cruzeiro e o moinho, ainda guardam memória. Ainda há amieiros para encostar e terra para riscar. Mas não é assim em todo o lado.

E não, não basta trazer os jogos uma vez por ano, em dia de festa, para a fotografia. Isso é regar árvore seca com conta-gotas. O que faz falta é chão vivo. Chão de terra, com árvore a dar sombra certa, com raiz à mostra para tropeçar e rir, com banco de pedra tosca para quem vê, com regra escrita num seixo para quem não sabe. Espaço feito de propósito, sem betão nos pés, onde miúdo, pai e avô possam jogar lado a lado, como se fazia. Só assim a vontade pega. Só assim a identidade cria raiz.

Porque um povo sem jogo é como moinho sem água. Está lá, bonito, mas não mói. E nós precisamos de moer memória para fazer farinha de futuro. Precisamos do cheiro da ribeira a entrar pelo nariz enquanto a pedra voa. Precisamos da magia da sombra que muda o jogo quando o sol muda. Se não dermos terreiro à tradição, ela fica só em livro. E livro na prateleira não faz rir, não faz suar, não faz amigo, não cheira a hortelã pisada.

Por isso digo: devolvam-nos a terra, devolvam-nos a árvore, devolvam-nos a sombra. O resto, a gente trata. A gente ensina, a gente joga, a gente passa. Como sempre se fez, de mão em mão, de pedra do rio em pedra do rio, de ponte românica a ponte românica, com os pés na terra, que é nossa.

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