Bemposta uniu povos num encontro de rituais ancestrais
Quem nos trouxe esta história, quem acendeu esta chama e nos fez olhar para Bemposta com ainda mais atenção, foi a embaixatriz da Família do Tio João naquela terra, a nossa querida tia Lúcia Parra, ouvinte fiel, participante ativa e coração sempre ligado a esta grande família. Foi ela que nos falou deste encontro único e nós, como não podia deixar de ser, achámos mais do que justo dedicar esta página a um acontecimento que honra a nossa terra e as nossas raízes.
Há terras que falam, há terras que cantam, e depois há terras como Bemposta, que ressoam.
No passado fim de semana, Bemposta, no concelho de Mogadouro, transformou se num autêntico altar vivo das tradições ancestrais, acolhendo mais uma edição do sexto encontro internacional de rituais ancestrais, um daqueles acontecimentos que não se explicam, sentem- se.
Durante três dias, a aldeia ganhou outra vida. Vieram grupos de várias regiões de Portugal e também do estrangeiro, Espanha, Itália, entre outros, trazendo consigo máscaras, cores, rituais e formas diferentes de viver uma tradição que, afinal, é comum a tantos povos. Mas foi no sábado que tudo atingiu o seu ponto mais alto.
O grande desfile percorreu as ruas de Bemposta e ali viu-se aquilo que poucas palavras conseguem descrever, mais de mil mascarados em movimento, num mar de cor, de chocalhos e de energia bruta. Não foi apenas um desfile, foi uma invasão de identidade. Os caretos, os diabos, as figuras misteriosas, os trajes bordados, os rostos escondidos, tudo se misturou num espetáculo vivo, intenso, por vezes arrebatador.
Os mascarados correram, saltaram, brincaram com o público, assustaram os mais distraídos e arrancaram gargalhadas aos mais corajosos. As crianças olhavam com espanto, os adultos com admiração, e os mais velhos, esses reconheciam ali pedaços de um tempo que também foi deles.
O som dos chocalhos ecoou pelas ruas e pelos montes. Não era apenas barulho, era presença. Era como se cada toque dissesse, ainda estamos aqui. E estavam, fortes, vivos, com uma força que não se aprende, herda–se.
A figura do Maschocalheiro destacou se como símbolo maior. Carregado de tradição e significado, representou, como sempre, essa ligação profunda à terra, aos ciclos da vida, à fertilidade e à renovação. Uma figura rude, intensa, quase selvagem, mas profundamente verdadeira.
Ao longo dos três dias, não foi só o desfile que deu vida à aldeia. Houve caminhadas pelo território do Douro Internacional, onde a natureza se juntou à cultura. Realizaram se palestras e momentos de partilha sobre os rituais ancestrais, onde se falou da importância de preservar estas tradições. Houve atividades para os mais novos, que assim vão aprendendo o valor daquilo que é nosso. E houve também mercado tradicional, música, convívio, sabores da terra, tudo aquilo que faz de um evento um encontro.
Um encontro de povos, de culturas, de gerações. Um encontro entre o passado e o presente. Um encontro entre quem veio de longe e quem sempre ali esteve.
E que bonito foi ver uma aldeia fazer uma coisa tão grande.
Porque Bemposta não cresceu em tamanho, cresceu em alma. Conseguiu juntar o mundo sem deixar de ser ela própria. Conseguiu mostrar que o Nordeste Transmontano não é só paisagem, é cultura viva, é identidade, é povo.
Não foi um espetáculo para turista ver. Foi uma afirmação, um grito, uma forma de dizer que estas tradições não pertencem ao passado, pertencem ao presente e ao futuro.
Porque no meio de mais de mil mascarados, houve uma certeza que ninguém conseguiu esconder, não eram máscaras que ali estavam.
Era a alma de um povo inteiro, viva, inteira e a bater forte.
