Mulher transmontana
Ser Mulher Transmontana é sinónimo de História, tradições, luta, resistência, coragem, trabalho e guardiã, no entanto, não deixemos que estas palavras nos iludam.
Ao longo da sua história a mulher transmontana foi obrigada a ser submissa e foi tantas vezes vítima de violência. Em novembro de 2025, li uma notícia que dizia que Bragança está entre os distritos com os valores mais baixos de denúncia de crimes de violência doméstica, segundo dados divulgados pela GNR, só que as coisas não são assim tão lineares. As denúncias por crime podem ter diminuído, mas o número de vítimas atendidas em núcleos de apoio têm vindo a aumentar, o que torna a sua visibilidade nas estatísticas oficiais menor.
Os valores conservadores continuam a limitar a vida das mulheres transmontanas, que por vezes ainda nos trazem à memoria os tempos do estado novo, onde a educação se baseava na modéstia, na família e no lar, ou quando olhamos para a tradição do carnaval e a sua origem num ritual de fertilidade, onde as mulheres eram os seus alvos. O que hoje constitui um folclore colorido e alegre, de um careto a chocalhar mulheres, foi no passado um ato de violência que pretendia subjugar as mulheres à sua posição menorizada. As mulheres eram efetivamente perseguidas enquanto os caretos (homens solteiros) protegidos por máscaras de lata, couro ou madeira e com um fato que lhes cobria o corpo, aproveitavam para interagir de forma exuberante, atrevida e muitas vezes violenta, com a mulher. Felizmente a tradição evoluiu, tal como a luta da mulher transmontana na exigência dos seus direitos e pela igualdade. Exemplo disso são as comemorações do dia 8 de Março, que também em Bragança, as mulheres trazem para a rua as suas reivindicações, numa iniciativa anualmente organizada pelo Movimento Democrático de Mulheres.
As desigualdades entre homens e mulheres continuam muito presentes enviesando a liberdade das mulheres na escolha da carreira ou se esta tem ou não o desejo de casar e ter filhos.
Quando refiro no início deste artigo que a mulher transmontana é também guardiã não me refiro apenas à forma como esta protege a família ou guarda os saberes tradicionais, refiro-me também a um matriarcado de sobrevivência em que as mulheres durante muito tempo, e ainda hoje podemos ver isso na casa das nossas avós. São as que têm a responsabilidade de gerir a casa, a economia familiar e a agricultura, acumulando uma enorme carga de responsabilidade ao mesmo tempo que continuam reduzidas a um papel inferior e amplamente desvalorizado.
No trabalho, os atropelos aos direitos, a precariedade e desemprego continuam a incidir mais sobre as mulheres. As diferenças salariais, tendência que aumenta sobretudo quando falamos de prémios e subsídios, existindo situações em que o patrão não permite que a mulher faça o turno noturno com a desculpa de que é para a proteger. Nos cargos de chefia, a diferença salarial pode chegar aos 854€/mês, algo que afeta sobretudo as mulheres de centros urbanos como Bragança.
No trabalho agrícola, as mulheres tornam-se invisíveis, trabalhando afincadamente no campo, onde enfrentam não só condições climatéricas adversas, como também a falta de reconhecimento profissional e a falta de proteção social.
Depois temos também o novo pacote laboral que o PSD, CDS e IL pretendem aprovar, pacote que veio para acentuar ainda mais as desigualdades entre homens e mulheres. Um pacote que ataca os direitos da paternidade e da maternidade, em que as responsabilidades parentais se transformam num dever da mulher, ou até mesmo o facto de quererem reduzir a licença da amamentação das crianças até os dois anos, usando neste último a justificação de que as mulheres abusam desse direito, ou seja, tudo medidas que vão no sentido contrário às soluções necessárias para combater as desigualdades.
Mas os atropelos aos direitos das mulheres, em regiões como a nossa, vão mais longe. Quando o isolamento e a distância impedem o acesso ao emprego, à formação,e aos cuidados de saúde, impedem a sua autonomia económica. A distância de serviços de saúde como obstetrícia, ginecologia ou rastreios oncológicos, obrigam estas mulheres a deslocações muito longas, a falta de médicos de família devido às dificuldades em fixar profissionais, levam-nos a meses de espera para uma consulta de rotina, obrigando muitas vezes a recorrer a serviços de urgência quando são problemas de cuidados primários.
Vivemos numa região onde as respostas na saúde sexual e reprodutiva são mais reduzidas, bem como o acesso a centros especializados, tornando o acesso ao planeamento familiar ou apoio na menopausa mais limitado.
Este isolamento oculta também as vítimas de violência doméstica devido à distância a que normalmente se encontram de centros de apoio e à falta de transportes para poderem denunciar e fugir, aumentando a vulnerabilidade destas vítimas.
Sem esquecer o efeito que a tecnologia pode ter, que apesar de se tentar através dela atenuar a distância, cria na prática barreiras com a digitalização de serviços, promovendo a exclusão digital das mulheres mais velhas. Não podemos esquecer a falta de rede em muitas aldeias da nossa região, mas também que o número mulheres mais velhas analfabetas é ainda uma realidade.
Com este artigo apenas pretendo alertar para a urgência das mulheres se organizarem e lutarem pelo que temos direito, a igualdade, o fim de todas as discriminações e violências. Esta é uma luta de todos, pretendo assim contribuir para a reflexão, só com a efetivação da igualdade entre mulheres e homens é que poderemos alcançar a justiça social.
Não há Março sem Abril!
Ouve a Daniela Rodrigues todas as Sextas às 21h no Parlamento Jovem da Rádio Brigantia
