Cereja arrasada pela chuva num ano em que se esperava uma das melhores colheitas
A campanha da cereja em Bornes, no concelho de Macedo de Cavaleiros, fazia antever um dos melhores anos de sempre. A qualidade do fruto, o calibre e a quantidade deixavam os produtores otimistas. Mas a chuva intensa e persistente das últimas semanas trocou as voltas à produção e provocou perdas avultadas, com muitos agricultores a falarem em prejuízos históricos.
Luciano Silva, produtor de cereja há vários anos, cultiva 17 hectares e costuma colher cerca de 80 toneladas por campanha. Este ano, as contas são bem diferentes, espera colher apenas entre 20 a 30 toneladas.
O problema surgiu quando o fruto já estava praticamente pronto para a colheita. “Havia bastante quantidade, mas infelizmente a chuva veio e estragou cerca de 80% da cereja. É um prejuízo enorme porque a cereja que se estragou, que cresceu, em vez de ir para a venda vai para o lixo”, lamenta, apontando perdas na ordem dos 50 mil euros.
A imagem das árvores carregadas rapidamente deu lugar à desilusão. “Ela estava bonita, estava grande, tinha um calibre bom, mas depois a chuva veio e rachou-a toda”, conta.
Apesar de admitir que episódios semelhantes têm acontecido ao longo dos anos, Luciano Silva garante nunca ter visto uma quebra desta dimensão. “Este cenário tem-se repetido, sim, mas não tenho memória de algo assim”, refere.
O produtor explica ainda que maio é um mês decisivo para a qualidade da cereja. “O ideal seria um mês de maio impecável, sem chuva, sem água. Em abril, se chovesse, não fazia diferença. Agora, neste mês de maio não convinha.” Este ano, acrescenta, a campanha começou mais cedo do que o habitual. “Tive de começar a apanha no dia 29 de abril e normalmente seria um mês depois.”
A mesma dificuldade é sentida por Carina Barreira, também produtora de cereja. A agricultora relata que a chuva e o frio acabaram por destruir grande parte do fruto que já estava maduro. “A primeira cereja estava madura ficou um bocado estragada pela intempérie, muita chuva, muito frio. Rachou, apodreceu”, explica.
E a situação continua a repetir-se na restante produção. “Agora, na que está para vir, continua a chover e muita dela, aquela que já estava a começar a ficar madura, também acabou por rachar. Tínhamos um bom ano de campanha de cereja e infelizmente não se vai verificar.”
Também Fernando Canha viu a campanha ficar comprometida pela chuva. Natural de Bornes, esteve emigrado em França e regressou à terra natal em 2017 para se dedicar à produção de cereja.
“A produção da cereja estava muito boa, mas o tempo estragou-nos uma grande parte da colheita. Foi demasiada chuva para a cereja, que ela não quer muita chuva, e foi pena, porque era uma boa colheita”, afirma.
Segundo o produtor, o fruto não resistiu ao excesso de água. “As cerejas estavam no período de crescimento e com a água arrebentou.”
Ainda considerando-se um pequeno produtor, Fernando Canha estima perdas entre os três e os quatro mil quilos de cereja. Da produção, apenas cerca de 200 a 300 quilos terão qualidade para venda. Financeiramente, os prejuízos rondam os três a quatro mil euros.
O mesmo cenário afetou também o morango, outra cultura a que se dedica. “O morango também é um fruto muito sensível à chuva, como as cerejas, ou até pior. E foi o prejuízo das cerejas e do morango também”, conta.
Falta de mão-de-obra continua a ameaçar o setor
Além das perdas provocadas pelo mau tempo, os produtores continuam a enfrentar outro problema: a falta de mão de obra. “Lá temos umas pessoas a ajudar, outras pessoas que se vão arranjando”, diz Luciano Silva.
Carina Barreira também sente que a escassez de trabalhadores continua a sentir-se na região. “Não temos mão de obra. Existem cada vez menos jovens no nosso território e tem que ser a família a ajudar uns aos outros. Vem o primo, vem o tio, é mais assim, nessa economia de subsistência, entre aspas, que se vai apanhando a cereja”, descreve.
Feira da Cereja da Serra alavanca negócio na aldeia
Apesar das dificuldades enfrentadas pelos produtores, a aldeia de Bornes voltou a celebrar o fruto, com a realização da nona edição da feira dedicada à cereja.
O presidente da Junta de Freguesia, Júlio Quintela, destaca o crescimento do certame, que este ano contou com 36 expositores, o dobro de anos anteriores. “Já não tinha mais porque não tinha espaço para colocar expositores”, refere.
Na freguesia existem dezenas de produtores, embora cerca de 10 apostem na produção “mais a sério”. E, apesar das perdas, garante que a qualidade da cereja continua elevada.
A feira tem vindo também a ganhar notoriedade fora da região. “Começa a ser conhecida a nível nacional e cada vez traz mais gente. Este ano vieram quatro autocarros, de Braga, Leiria, Porto, Fátima e Viana do Castelo”, explica Júlio Quintela.
Os visitantes continuam a procurar a cereja de Bornes, mesmo num ano particularmente difícil para os agricultores. “A cereja de Bornes distingue-se pelas características únicas do território, tem um aroma diferente, é a cereja da serra. Nós aqui temos um clima muito bom que é frio, a serra é fria e a cereja quer muito frio”, descreve.
O preço manteve-se igual ao do ano passado, a caixa de dois quilos custaa 12 euros. Ainda assim, os produtores sublinham que o rendimento caiu drasticamente. “O nosso rendimento é muito menos, porque nós para apanhar meia dúzia de caixas de cerejas passamos um dia, porque é preciso escolher muitas cerejas”, conclui Fernando Canha.

