Silêncio que adoece
Opinião

Silêncio que adoece

  • 13 de Abril de 2026, 17:54

Vivemos numa época estranha: nunca se falou tanto de saúde mental e, paradoxalmente, nunca houve tanta gente a sofrer em silêncio. Há uma sensação difusa, quase um murmúrio coletivo, de que algo não está bem. E não está.

Os números não mentem, mas também não contam toda a história. Em Portugal, mais de um quinto da população vive com uma perturbação psiquiátrica. Isto significa que, numa sala com cinco pessoas, pelo menos uma está a lutar internamente, talvez sem que ninguém perceba. As perturbações de ansiedade lideram, seguidas das perturbações do humor. E, ainda mais inquietante, cerca de 4% dos adultos enfrentam doenças mentais graves. Não são estatísticas abstrata, são vidas interrompidas, relações fragilizadas, dias que custam a atravessar.

Mas o que verdadeiramente assusta não é apenas a prevalência. É a normalização do sofrimento.

Hoje, diz-se com facilidade que estamos ansiosos ou deprimidos. E, embora isto represente um avanço na linguagem, um sinal de que deixámos de ignorar totalmente estas realidades, esconde-se um perigo subtil, o de banalizar aquilo que é profundamente sério. Nem toda a tristeza é depressão, nem toda a inquietação é ansiedade clínica, mas também é verdade que, por trás de muitas dessas palavras ditas à pressa, existem dores reais, persistentes, que não são tratadas.

E é aqui que reside um dos maiores dramas do nosso tempo, a negação.

Há quem não procure ajuda por desleixo. Outros por falta de acesso ou informação. Mas muitos, talvez a maioria, evitam encarar o problema porque isso implicaria reconhecer uma fragilidade. E vivemos numa sociedade que ainda glorifica a resistência silenciosa. Aguentar. Continuar. Não parar. Como se cuidar da mente fosse um luxo e não uma necessidade básica.

A verdade é que a doença mental raramente começa de forma abrupta. Instala-se devagar. Um cansaço que não passa. Uma ansiedade constante. Uma perda de prazer nas coisas simples. Pequenos sinais que vão sendo ignorados, adiados, racionalizados. Até que, um dia, já não são pequenos.

E então chegamos tarde.

E, talvez ainda mais difícil de admitir, quando alguém não se trata, não sofre sozinho. O sofrimento transborda. Espalha-se pelas pessoas mais próximas, pais que não sabem como ajudar, parceiros que se sentem impotentes, amigos que assistem, entre a preocupação e a frustração, a um afastamento que não compreendem. As relações tornam-se tensas, por vezes frágeis, outras vezes silenciosamente desgastadas. A doença instala-se não apenas no indivíduo, mas no tecido das relações.

E esse impacto não se limita ao círculo íntimo. Propaga-se à comunidade e aos colegas, no local de trabalho, na escola, nos espaços sociais. Afeta dinâmicas, produtividade, convivência. Cria ausências, físicas e emocionais. A saúde mental, quando negligenciada, deixa de ser um problema individual e torna-se uma questão coletiva.

Ainda assim, estas doenças continuam a ser tratadas como um tema secundário, algo que se resolve “com tempo” ou “com força de vontade”.

Não se resolve.

A saúde mental não é uma questão de escolha. Ninguém escolhe sentir-se vazio, esmagado, paralisado pelo medo ou pela tristeza. E, no entanto, continuamos a agir como se fosse uma questão de atitude.

Há, no entanto, um ponto de esperança. E ele começa na consciência. Reconhecer que não estamos bem não é um fracasso, é um ato de lucidez. Procurar ajuda não é fraqueza, é responsabilidade. Falar não é dramatizar, é sobreviver.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas tratar a doença mental, mas desmontar o silêncio que a envolve, criar espaços onde se possa dizer “não estou bem” sem medo de julgamento, educar para que se reconheçam sinais precoces, investir, de forma séria e contínua, em serviços de saúde mental acessíveis e eficazes.

Porque a verdade é simples, ainda que incómoda, não está toda a gente bem.

Há uma urgência coletiva em aprender a olhar, para nós e para os outros, com mais atenção, mais empatia e menos negação. Porque, no fim, cuidar da saúde mental não é apenas uma questão individual. É um compromisso social. E estamos, ainda, perigosamente atrasados.

Carina Alves, Diretora de Informação.


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Carina Alves