Chaves, porquê?
Li na imprensa este título “Fabricante espanhola de alumínio investe 100 milhões em Chaves e cria 400 empregos” e fui logo invadido por uma pergunta: Porquê? Por que é que uma multinacional espanhola, com várias fábricas na Europa, pensando no que é melhor para ela, decide escolher Chaves, no interior do interior de Portugal?
Uma região como Trás-os-Montes, tantas vezes falada como se estivesse longe de tudo, vê, de repente, uma multinacional escolher o seu território para instalar uma grande fábrica. Isso merece atenção. Mas, para além da notícia, talvez valha a pena fazer uma pergunta mais interessante: o que esta decisão nos diz sobre Chaves e sobre Trás-os-Montes?
Durante muitos anos habituámo-nos a ouvir que o interior perde sempre. Perde pessoas, investimento e influência. Como se fosse um destino inevitável. Como se as empresas, ao crescerem, olhassem sempre para o litoral e raramente para o Norte interior. Ora, a decisão da Cortizo mostra que essa ideia pode estar errada, ou, pelo menos, incompleta.
Chaves tem uma vantagem que, às vezes, nós próprios esquecemos: não está apenas em Trás-os-Montes. Está também perto da Galiza. Está numa posição de fronteira que, vista de longe, pode parecer periferia, mas, vista por uma empresa espanhola, pode ser exactamente o contrário: um ponto de ligação entre dois mercados, duas redes logísticas e duas realidades empresariais. O Parque Empresarial de Chaves fica junto à A24 e perto da A52 espanhola, o que o coloca numa posição muito útil para uma empresa que quer servir a Península com rapidez e eficiência.
Depois há um aspecto muito prático, mas decisivo. As empresas industriais precisam de espaço, acessos, previsibilidade e condições para crescer. Não escolhem apenas cidades “famosas”. Escolhem lugares onde seja possível instalar uma unidade grande, operar com custos controlados e trabalhar sem os constrangimentos de zonas mais saturadas. O projecto anunciado pela Cortizo prevê um investimento de cerca de 100 milhões de euros, numa área de grande dimensão, com criação de cerca de 400 empregos. Isso não se faz em qualquer lugar.
Também não convém ignorar outro ponto: este tipo de investimento não surge por milagre. A própria Câmara de Chaves tem referido que este processo foi sendo preparado ao longo dos anos e que o concelho reuniu as condições para acolher a empresa. Além disso, o projecto foi classificado como PIN, isto é, Projecto de Interesse Nacional, o que evidencia o enquadramento institucional e a prioridade política.
Mas o mais importante talvez seja isto: a escolha de Chaves obriga-nos a pensar de outra forma sobre o nosso território. Talvez Trás-os-Montes não tenha de competir imitando o litoral. Talvez tenha de competir por ser aquilo que o litoral não consegue ser: espaço disponível, menor saturação, boa ligação transfronteiriça, qualidade de vida e capacidade para acolher investimento industrial em escala.
Claro que uma fábrica não resolve todos os problemas. Não inverte sozinha décadas de perda demográfica, nem garante automaticamente um ciclo sustentado de desenvolvimento. Mas pode ser mais do que um investimento isolado. Pode ser um sinal. Um sinal de que há empresas a olhar para esta região com olhares distintos. E talvez esteja na altura de nós fazermos o mesmo.
pergunta, no fundo, não é apenas por que veio a Cortizo. A pergunta é mais exigente: que outras empresas poderiam vir também, se soubéssemos olhar para Trás-os-Montes não como fim de linha, mas como plataforma? Talvez a resposta comece aí.
