Páscoa, Paz e Petróleo
Opinião

Páscoa, Paz e Petróleo

  • 10 de Abril de 2026, 10:10

É atribuída a Gaston Bouthoul (1896-1980), sociólogo francês tido como fundador da polemologia, disciplina que pretende estudar a guerra cientificamente, a expressão “é a guerra que gera a História”. Seja ou não seja, a verdade é que de guerras a História não se tem livrado e não me parece que tal venha a acontecer a breve prazo.

No momento, dois conflitos armados, é público e notório, dominam as atenções mundiais: o que resultou da invasão da Ucrânia por tropas russas, para uns tantos só porque a Vladimir Putin lhe deu na veneta e o desencadeado pelo ataque dos Estados Unidos e de Israel à autodenominada República Islâmica do Irão, que de república pouco tem.

Certo é que tais conflitos, corporizam o afrontamento geopolítico das grandes potências económicas e militares da actualidade, com implicações, directas e indirectas. no mundo inteiro, ainda que mais pronunciadamente a guerra do Irão, pelos condicionamentos que coloca ao fornecimento de petróleo que, como se sabe, mexe com a economia de todos os países.

Poder-se-á afirmar, sem grandes pruridos epistemológicos, teológicos e minudencias históricas, que outras razões há, porém, não tão badaladas, com destaque para a luta que o moderno Estado de Israel trava, há décadas, pela sua sobrevivência, depois que, durante séculos, o povo judeu foi massacrado e perseguido por toda a parte.

Luta iniciada desde que lhe foi atribuído e bem, um pequeno território no berço da sua pátria milenar, que tem ousado aproveitar com sucesso pleno, com vantagens para toda a Humanidade. Alguém disse, o que merece uma certa reflexão: a história do povo judeu é a melhor prova da existência de Deus.
Outra razão determinante é o fanatismo religioso dos aiatolas iranianos que, cruamente, impõem excêntricos usos e costumes ao seu próprio povo, especialmente no que às mulheres diz respeito, afrontado a generalidade das demais nações, democráticas ou não tanto, mesmo muçulmanas. Para lá de que terão mesmo a tenebrosa sagrada ambição de os impingir aos restantes povos da Terra, o que é mais grave.

Todavia, outras guerras grassam, em África especialmente, não tão vistosas como as atrás citadas, mas nem por isso menos desumanas e devastadoras, atiçadas igualmente pelo explosivo cocktail composto de xenofobia, petróleo e religião de inspiração islâmica fundamentalista.

É o caso da guerra na Nigéria, o país mais populoso e o maior produtor de petróleo da África, com a parte norte predominantemente muçulmana e o sul maioritariamente cristão, e em que grupos extremistas como o Boko Haram e ISWAP (Estado Islâmico da África Ocidental) perseguem, impunemente, comunidades cristãs, em especial.

E também a guerra civil do Sudão que comporta uma das piores crises humanitárias da actualidade, com mais de 150 mil mortos e milhões de deslocados.

Cito, por fim, a guerra que lavra no norte de Moçambique, em Cabo Delgado mais precisamente, onde, desde 2017, o sinistro “Estado Islâmico” espalha o terror, deixando no seu rastro mais de 8 mil vítimas e milhares de deslocados. Conflitos que se inspiram, de uma forma ou doutra, no fanatismo religioso que igualmente anima os citados aitolas iranianos.

Ao conflito moçambicano já me referi, aqui neste mesmo espaço, há seis anos, a propósito da bárbara destruição da notável Missão Católica de Nangololo, uma localidade situada no Planalto dos Macondes, bem no coração de Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique.

Lembro que ali, em 1924, padres holandeses fundaram uma importante Missão Católica, a partir da qual cristianizaram o aguerrido povo maconde, animista, especialmente notado porque os homens desfiguravam o rosto com golpes profundos e as mulheres usavam brincos aguçados no lábio superior, à laia dos modernos piercings e tatuagens, tão em moda hoje em dia.

Muito perto de Nangololo teve lugar o primeiro episódio funesto da guerra da independência com o assassinato por guerrilheiros da Frelimo, no dia 24 de Agosto de 1964, de Daniel Boormans, um jovem padre holandês que contava 33 anos à hora da morte, a idade do próprio Jesus Cristo.

Lamentavelmente, os episódios de perseguição naquela região prosseguem, agora denunciados pelo Bispo de Nacala, D. Alberto Vera, que recordou o sacrifício da Irmã Maria de Coppi, missionária comboniana de 82 anos, assassinada com um tiro na cabeça, em 2022 e a decapitação, em Novembro passado, de dois jovens cristãos que se publicamente se recusaram a abjurar a sua fé.
A Páscoa, a paz e o petróleo têm os seus custos, bem trágicos, por vezes, como se vê.

Lamentável, a todos os títulos, é a passividade pusilânime dos principais líderes europeus perante episódios tão marcantes, que poderão ser fatais para a Europa e que não devem continuar a ser silenciados, sobretudo quando se celebra a morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Cumpro a minha parte.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.


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Redação