Alecrim dourado da perfeição
Nos dias que correm, já não estamos habituados a ver pessoas imperfeitas. Agora é tudo bonito, esperto e cheio de razão.
De tudo, todos percebem. Do concreto, há uma fuga para a frente. Hoje já ninguém pode falhar. Só os possidónios é que falham, o resto é tudo perfeito.
Não me admira que hoje não se consiga ter uma conversa normal sobre algo normal sem que os decibéis subam logo. Hoje, na sociedade, toda a gente sabe de tudo, é especialista em tudo, com uma licenciatura no Google e mestrado no Chatgpt. Hoje, qualquer mera opinião ou ponto de vista já não existe, porque agora não vivemos nesse tempo, agora tudo é facto. E se a nossa opinião não for a do nosso companheiro, ou companheira, de conversa, então já somos nós que estamos errados porque, diga lá, alguém acredita que está errado? Deus nos livre. Mas o mais curioso desta nova vaga de ideias é que, quando as coisas não são, efetivamente, como os alecrins dourados da perfeição dizem que é, então já não é verdade ou é até mesmo loucura da nossa parte. Onde já se viu pensar pela própria cabeça, enfm.
Os nossos dias também são propícios à existência de outro tipo de fenómeno que foi batizado pelo meu amigo Adão Silva, o transfuguismo. Resumindo, este conceito poderá resumir-se à ligação entre ação e discurso, a tal coerência, não sei se sabeis o que é. Eu não acho que mudar de opinião seja crime ou erro. Acho que é maturidade e até desenvolvimento pessoal. Só que há matérias em que isso não é bem assim. Quando deixamos de gostar de algo, não aparecemos com isso vestido ou calçado. Se até chegarmos ao ponto de “falar mal” de algo, não podemos andar a agir como se não o fzéssemos. Cada vez mais vejo que, nos temos que correm, há uma facilidade para se dizer do outro o que o diabo não diz do presunto, sendo vegan ou não.
Neste mundo em que só há registo e espaço para os alecrins dourados da perfeição, é cada vez mais difícil ser-se aceite e até mesmo compreendido. Hoje, já não há liberdade de expressão, porque ao haver opiniões que se classifcam como certas ou erradas, deixa de existir pensamento crítico e valores. Só resta dançar a música que nos tocam ou valerá a pena ser contracorrente? Será aceitável, nos dias de hoje, que cada um possa dizer aquilo que pensa, ter os seus valores e convicções, e não ser criticado por isso? Eu acho que sim, mas os alecrins dourados da perfeição acham que não. E estamos tramados, porque são eles que mandam.
É ou não é?
