Viver a Quaresma
Opinião

Viver a Quaresma

  • 24 de Março de 2026, 14:54

Cada aurora é uma oferenda que renova os seus enigmas para que ninguém possa dominar completamente o dia e possa levá-lo até ao fim. Cada quaresma reveste também um sentido particular e esta, tendo em conta a atualidade, chama-nos a viver como uma urgência evangélica no turbilhão dos acontecimentos muitas vezes violentos, obscuros, do mundo à nossa volta. A urgência é participar numa história comum ao aceitar e acolher o acontecimento. A Quaresma encoraja-nos a não nos afastarmos do presente, a estarmos atentos à iminência ardente do desejo de justiça, da necessidade de amar.

Um tempo de introspeção, mas que na realidade deve abrir-nos ao mundo e aos outros. A nossa vida não segue um caminho pré-concebido, exige ser questionada pelo seu contrário, a ponto de responder de forma presente diante do caos, da violência, da incompreensão. A Quaresma é um tempo de interpretação, de tradução dos acontecimentos que, demasiadas vezes, sofremos passivamente. Não será esta a nossa situação atual, neste mundo fragmentado e dividido, que multiplica as mentiras e as falsas «boas novas» e que, mais do que nunca, também nos recorda o dever da verdade? A Quaresma convida-nos a abandonar a nossa cobarde satisfação pessoal. Os nossos pequenos compromissos com a verdade. E talvez nunca, enquanto cristãos, tenhamos tido uma responsabilidade como esta no mundo: afirmar que algo veio, vem e virá muito em breve ao próprio coração desta noite confusa, desta confusão humana. A verdade nunca é aquela que se impõe aos outros, contra a sua própria realidade íntima e coletiva, mas sim aquela que se espera com paciência e resistência (são palavras do Apocalipse), como objeto de uma esperança fraterna que só pode cumprir-se ao acudir, como se diz, às mais urgentes de todas as aflições da humanidade e do mundo.

Ser atingido pela insensibilidade, pela preguiça do coração e do espírito: eis o pecado maior. E o tempo da Quaresma interpela-nos: quem de entre nós não guarda, no mais íntimo de si, um arrependimento, um remorso, uma censura, uma confissão para sempre selada? Quem nunca foi despertado, durante a noite, pelo fantasma de uma presença abandonada, negligenciada? Ou quem nunca voltou a ver, numa pobre e pungente alucinação, o rosto daquela ou daquele que pôde humilhar ou rejeitar, esquecer, e cujas lágrimas já não poderá enxugar? Mas como aceitar então olhar-se de frente, senão sob o olhar de uma alteridade mais vasta, do Deus «feito humano»? Os Antigos diziam-no à sua maneira: há uma doçura amarga na Quaresma. E dessa doçura amarga devo tirar os frutos de uma revolta, isto é, de uma urgência em agir, pensar e reinterpretar o facto de estar vivo hoje entre os outros (tudo isto que, para mim, pertence à figura infinita de Cristo Messias). Se tivesse de resumir numa fórmula, diria que sou levado a desejar menos as coisas de que necessito do que as coisas que necessitam de mim». Na Quaresma, o tempo presente é vivido sob o signo da iminência e já não da fatalidade, e deve servir para pôr fim ao mal, aos sofrimentos e aos erros. Não nos julgarmos inocentes, sem responsabilidade; não nos desviarmos do acontecimento sombrio. E, se há deserto, devemos vê-lo com olhos absolutamente novos. Atravessá-lo não para fugir dele, mas para o transformar em graça, em força de ascensão.


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Redação