Combustíveis em alta apertam taxistas de Bragança e há quem pondere abandonar a profissão
A praça de táxis em Bragança vai enchendo ao longo do dia. O movimento não acompanha a presença dos carros alinhados. O cenário repete-se nos últimos meses: mais tempo de espera, menos clientes e uma preocupação comum, o aumento do preço dos combustíveis, que está a deixar o setor à beira do colapso.
Com o gasóleo já acima dos dois euros por litro e com previsões de novas subidas, os taxistas dizem que o rendimento encolheu drasticamente. O contexto internacional, marcado pelo agravamento do conflito no Médio Oriente, continua a pressionar os preços, com impactos diretos no dia a dia de quem vive da estrada.
Preço dos combustíveis reduz ganhos ao mínimo

Para os profissionais do setor, o aumento do preço dos combustíveis não é apenas mais uma despesa, é um fator que compromete toda a atividade.
Com a subida abrupta dos preços, para Marcelino Ferreira, taxista e delegado distrital da ALTRAN, “há cada vez temos menos margem, menos rendimento”. “Quanto mais caro o combustível, menos fica para nós”, destacou, descrevendo um cenário de “quebra acentuada” nos rendimentos, já que os serviços continuam a ser, na sua maioria, poucos e curtos e as tarifas não acompanham a subida dos custos. “A tarifa mínima é de 3,25 euros. Ou seja, esse é o preço mínimo que uma pessoa paga a partir do momento em que entra no táxi, mas, se formos, por exemplo, da praça ao hospital, que é bastante perto, gastamos quase um litro de gasóleo e praticamente não sobra nada de lucro”, referiu.
O aumento da tarifa é também a única solução que o taxista Rui Ferreira vê como possibilidade de salvação imediata. “Para o negócio poder ser rentável, têm de aumentar as tarifas. Assim torna-se inviável”, frisou.
Os números confirmam essa realidade. Onde antes se faziam 70 a 90 euros por dia, agora “há jornadas que terminam com 30 ou 40 euros em caixa”. “É quase metade”, destacou ainda o taxista. Também António José, taxista e presidente da Associação de Táxis Brigantina, vê na atividade algo cada vez menos sustentável. “Estamos a trabalhar para o gasto, já não compensa”, lamentou.
Entre resistir e abandonar a atividade

A incerteza quanto ao futuro está a levar muitos profissionais a ponderar decisões difíceis. Se os preços continuarem a subir, há quem admita parar.
Marcelino Ferreira é um dos que tem o futuro definido, caso os preços continuem “a subir por aí acima”. Se o preço do litro do gasóleo chegar aos dois euros e meio ou três admite que “o carro não sai mais da garagem” porque “não vale a pena trabalhar para ter prejuízo”. Assim, regressar às origens pode ser mais cómodo. “Se isto não der… volto para a agricultura. São as minhas origens. Pode não dar muito, mas pelo menos não se perde dinheiro e uma pessoa é feliz”, rematou.
A mesma sensação de impasse é partilhada por António José. Taxista há 16 anos, acredita que a única solução é subir as tarifas. Contudo, não está certo de que seja o melhor a fazer, sob pena de afastar clientes. E, sem apoios claros, o cenário parece bloqueado. “Não vejo soluções. Se isto continua assim, mais vale encostar os táxis. Encostar durante um tempo e procurar outro tipo de trabalho pode ser o caminho. Pelo jeito, não demoro em ir pedir trabalho a uma câmara ou qualquer coisa do Estado. Já só assim é que se pode trabalhar, porque a nossa conta já não dá.”, lamentou.
Para Rui Ferreira, que entrou recentemente na profissão, é taxista há três anos, a situação é igualmente preocupante. “Há lucro, mas é mínimo, residual. Desde que aumentaram os preços dos combustíveis, isto vai ficar muito difícil. O problema é que os preços estão a aumentar e as nossas tarifas não aumentam. Continuam as mesmas. Não dá para fazer grande vida”, explicou, destacando que, tal como ponderam os colegas, se chegar a um ponto em que já não compense, a ideia é desistir. “Prefiro, por exemplo, vender o táxi”, referiu o ex-motoristas de autocarros, que deixou essa profissão porque “andava sempre fora” e decidiu que queria estar “mais perto da família”.
Concorrência crescente agrava dificuldades

A pressão, na praça de táxis, não se faz sentir apenas por causa do aumento do preço dos combustíveis. Esta é a mais recente, mas há mais preocupações que estão a alarmar os profissionais do setor.
Nos últimos anos, o número de veículos associados à Uber cresceu de forma significativa. Segundo Marcelino Ferreira, “antes havia dois ou três, mas agora são mais de dez”. “Isto tira-nos muito serviço. Além disso, não há fiscalização. Não há controlo suficiente”, acrescentou, explicando ainda que “normalmente há uma lei europeia que dita que só pode haver um Uber por cada 10 táxis e em Bragança há pouco mais de 20. Já Uber são entre 10 a 14”.
António José também sente as mesmas dores. “A concorrência é uma das maiores queixas que temos neste momento”, disse o taxista.
Além da concorrência, o próprio mercado mudou. Ou seja, como “as aldeias têm cada vez menos gente”, os serviços mais longos, que “compensavam bastante”, acabaram por “reduzir”. “Trabalhávamos muito com as aldeias, agora há menos pessoas e, claro, menos trabalho”, explicou Rui Ferreira, avançando que, hoje em dia, o grosso dos serviços é dentro da cidade e tendencialmente percursos curtos, acabando por, ao fim do dia, se levar menos dinheiro para casa.
