“Tenho esperança no aumento da capitação ainda este ano”
Em entrevista ao Jornal Nordeste, o presidente do conselho de administração da ULS do Nordeste, António Marçôa explica como conseguiu conciliar a redução de custos com a diminuição das listas de espera e fala das prioridades para este ano.
Jornal Nordeste (JN) – Qual é a actual situação financeira da Unidade Local de Saúde do Nordeste?
António Marçôa (AM) – As contas melhoraram significativamente pela nossa acção e pela acção dos nossos profissionais e também por algum auxílio da tutela, nomeadamente o perdão da dívida de 18 milhões que nós tínhamos ao Fundo de Apoio ao Sistema de Pagamento.
Vamos fechar o ano com melhoria dos resultados do ano anterior, mesmo depois de termos que absorver custos elevadíssimos do subsídio de férias e do aumento dos encargos da entidade patronal. Pelas nossas contas isso representaria 2,4 milhões de euros, que não tinham sido inicialmente orçamentados. E ainda tivemos que absorver o corte nas receitas de 2,6 por cento.
Na prática, o que nós fizemos foi prestar melhores cuidados de saúde com uma diminuição fortíssima de custos, o que é uma vitória para nós.
Ainda assim, para o futuro não temos ainda a sustentabilidade assegurada, isso também não escondo. E continuo a referir que seria necessário um ajuste da capitação.
JN – O aumento da capitação é uma reivindicação antiga. Tem alguma garantia da tutela de que isso possa vir a acontecer?
AM- Com a visita recente que tivemos do secretário de Estado da Saúde ficámos esperançados que este ano nós teríamos um ajustamento da nossa capitação. Aguardo ainda uma decisão, mas o que é certo é que esse ajustamento na capitação permitir-nos-ia compensar a redução em 3,5 por cento que foi feito de forma transversal para todas as instituições de Saúde no orçamento deste ano.
Se esse ajustamento não se verificar não escondo que será muito complicado. Por isso, neste momento tenho algumas condições para dizer que esse ajustamento será feito.
É um montante significativo. O ajustamento é a diferença que nós temos ao nível da capitação face a outras Unidades Locais de Saúde semelhantes à nossa, nomeadamente no Alentejo, que são as que são comparáveis. Estamos a falar de cerca de 80 euros por habitante, que no nosso caso somos 143 mil, o que perfaz cerca de 10 milhões de euros.
A dívida total rondava os 50 milhões, desses cerca de 10 milhões eram dívidas dentro do próprio sistema Nacional de Saúde e estavam também estes 18 milhões que foram perdoados, mesmo assim ainda temos uma dívida significativa a fornecedores, que nos preocupa pelo facto de estar directamente relacionada com a própria sustentabilidade da instituição.
JN – Foi possível reduzir custos e, ao mesmo tempo, melhorar os cuidados de Saúde?
AM – Sim. Isso foi acompanhado com uma prestação nos cuidados de saúde assinalável. Nós tivemos uma diminuição fortíssima das listas de espera cirúrgicas para prazos mais do que aceitáveis, para cerca de 90/100 dias, e a nível de consultas nem temos praticamente listas de espera, conseguimos colmatar as falhas ao nível da Cardiologia, Oftalmologia e Ortopedia.
Por outro lado, saiu recentemente o índice de Desempenho Global das instituições de saúde e entre 50 nós aparecemos em 14.º lugar.
Este aumento da qualidade não é apenas transmitida por nós internamente, ainda recentemente a Entidade Reguladora da Saúde reconheceu que vários dos nossos serviços hospitalares são de excelência.
JN – Em que áreas é que conseguiram reduzir custos?
AM – Nós tivemos poupanças a vários níveis. Só não tivemos redução ao nível do material de consumo clínico, nomeadamente material cirúrgico, resultante da diminuição das listas de espera. Nas outras rubricas, nomeadamente gastos com pessoal e fornecimento de serviços externos tivemos uma diminuição muito significativa. No caso dos gastos com o pessoal contribuiu desde logo com a passagem de 35 para 40 horas e também a reorganização das escalas de urgência e maior controlo de assiduidade. No caso do fornecimento de serviços externos contribuiu a internalização das análises nas cidades de Bragança, Macedo e Mirandela, que permitiu uma poupança superior a 1,2 milhões de euros num ano, e os concursos que se lançaram para os meios complementares de diagnóstico a preços significativamente mais baixos.
Ainda falta fazer muito. Nós temos vários concursos lançados agora e acreditamos que vamos ter diminuições de custos fortes, tendo em conta a actual conjuntura que permite um ajustamento de preços.
JN – A internalização de análises a todo o distrito e dos meios complementares de diagnóstico é para avançar?
AM – Essa poupança significativa levou-nos mesmo a pensar na internalização completa das análises clínicas. A situação está ainda em análise, neste caso é muito mais complexa do que a primeira metade, pela simples razão que os outros 50 por cento dizem respeito à parte mais interior do nosso distrito, implica um cuidado com os circuitos de colheita que são complicados e isso implica também custos. Por isso, estamos ainda a analisar se efectivamente irá ter o impacto que nós pretendemos, porque se for inferior pode-se colocar outras hipóteses, desde logo negociar com os agentes da região.
Nas análises clínicas nós optámos por aproveitar os recursos que já tínhamos. Já noutros casos poderemos não optar pela internalização. Por exemplo na Fisioterapia optámos por estabelecer parcerias com misericórdias da região porque nós sozinhos não tínhamos capacidade. No caso da Imagiologia para internalizar teria que adquirir equipamentos que são dispendiosos. Por exemplo o nosso TAC estava obsoleto, para substituir o equipamento tínhamos que investir cerca de 200 mil euros, sucede que tentámos uma outra solução que foi encontrar quem estivesse interessado em colocar o equipamento e cobrasse um baixo custo pelos exames, e conseguimos preços inferiores aos anteriores para a leitura de TAC`s.
