Recordando Bragança de antigamente
Apeei-me, sobretarde, na moderna rodoviária. Ai de mim! Julgava reconhecer a cidade!… mas necessitei de aturadas pesquisas…
Como se transformou a minha querida cidade!… A vetusta estação ferroviária – agora extinta,- metamorfoseou-se, lavou o rosto, aperaltou-se com graciosos e originais bancos.
Desci à Praça da Sé – pensando de mim para mim: para onde foi a Bragança dos meus verdes anos?!… – Graças a Deus, o afamado clube lá estava sobre o elegante “Chave D’Ouro”,assim como a Sé (agora catedral), o “Café Central”, o “Flórida” e a livraria, modernizada, do Sr. Silva…mas… o Montepio, o Liceu, para onde foram?!…
Enveredei por Abílio Beça, caminhando para o Seminário.
A custo atentava descortinar estabelecimentos, lojistas da minha juventude, mas o esforço foi vão.
A Avenida do Sabor – outrora elegante e snobe, – não passa agora, de vereda desarrumada, com muitas casas delapidadas.
Estaquei na deserta residência do Dr. Pires – nos anos sessenta ouvia-se chilrear irrequietos petizes ; mais a baixo, a do Dr. Flores, com o jardinzinho, onde brincava a bela e meiga menina dos totós, transformado em horta mal cuidada.
Nesse peregrinar pelo passado, cheguei à cidadela. Pelo caminho “vi” – como os olhos se enganam! – “velhos” rostos de meninas que frequentaram o “Sagrado Coração de Jesus”….Como se assemelham! Como a vida se repete!…
Bragança ataviou-se. Está mais cuidada, mais graciosa, mais formosa.
O Fervença e o jardim – onde jovens casadoiros passeavam outrora em quentes noites de Verão, – ganharam espaço, tornando-se quase irreconhecível.
Valeu-me o “Floresta”, velho “amigo”, onde saboreei, nos anos sessenta, apetitosos pratinhos de camarão…
O Loreto alindou-se de sóbrios candeeiros à antiga, e a linha férrea deu lugar à Avenida Sá Carneiro; mas…vieram-me as lágrimas aos olhos… – a humilde Rua da Boavista ficou mutilada!…salvou-se, ainda bem, a casa onde vivi…
Enquanto deambulava, recordei figuras populares do passado: a senhora da Moagem, que me saudava com afecto; o Dr. Artur Flores, que tomava o cafezinho no “ Chave D’Ouro”; o Major Montanha; o Sr. Silva, da livraria; o Sargento Mário, de Vinhais; o Padre Telmo; o Professor Bi; o Sr. Manuel do “Café Lisboa”; a simpática menina da Agência de Viagens; a elegante Fátima; o bondoso Mané…e tantos, que a memória não guardou, mas o coração conserva.
E nesse deambular pelo passado, pareceu-me escutar, destacada da vozearia do café, a voz cheia, forte do Dr. Flores – o melhor médico de então, que sempre tinha a formula, que só ele conhecia, para sarar os males.
O Dr. Artur Flores parecia estar sempre zangado. Constava que possuía um coração de oiro. Dentro daquele austero Homem, que muitos temiam e tremiam, havia alma generosa, pronta a acudir carenciados…desprotegidos da sorte.
Que saudades sinto da minha pequenina cidade! Bragança das Cantarinhas!, das festas e romarias!, das casas e varandas de madeira!,dos becos tortos e ruas estreitas!, de endiabrados estudantes!, de meninas de olhos cinza e pele cor de centeio!… Que saudades Deus meu! Como é refrigério para a alma recordar esses velhos, e sempre presentes, tempos!…
Humberto Pinho da Silva
