O edifício, destinado à preservação da memória do comboio em Bragança, que foi objecto de ampliação, surge onde esteve já o Núcleo Museológico ferroviário da cidade, encerrado há 17 anos. Localizado junto à antiga estação de caminhos-de-ferro, ocupa o espaço anteriormente destinado ao parqueamento de carruagens daquela que foi a estação terminal da Linha do Tua.
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A cidade viu definitivamente, ser retirado o comboio em 1992 e, “passado todo este tempo”, surge a recuperação e construção de um espaço novo, o Museu Nacional Ferroviário de Bragança, “de forma a dignificar aquilo que foi a actividade de muitas pessoas que trabalharam neste sector”, começou por dizer o presidente da câmara municipal da cidade.
Desinvestimento na linha férrea
Em plena inauguração, Hernâni Dias deixou sobretudo assente que, “sendo certo” que ainda hoje se “aposta” neste meio de transporte e se tem vindo a assistir, ultimamente, a uma “forma mais intensa de pretender fazer a intervenção na ferrovia”, o que pode ser comprovado no Programa Nacional de Investimento (PNI) 2030, porque “uma boa parte dos investimentos, para além de estarem localizados no litoral, têm a ver com a questão da ferrovia”, lamenta-se o desinvestimento na região neste sector. “Não só na altura que lamentamos o facto de ter encerrado esta linha, lamentamos também que não se tivesse desenvolvido aquilo que já era um grande projecto para o território, com ligação a Espanha. Ainda hoje falamos dessa ligação, até por via rodoviária, e gostaríamos que tivesse sido dado seguimento a esse projecto da linha férrea, de forma a que se tivesse evitado o que aconteceu numa fase posterior: o encerramento da linha do comboio no nosso território”, explicou o presidente.
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Recordando a luta “bastante importante e com algum vigor de personalidades do território” para que a linha chegasse à cidade, o que aconteceu em 1906, Hernâni Dias sublinha que “de lá para cá houve um desinvestimento neste meio de transporte” e que não se compreende o que aconteceu pois “quando falamos, e falamos muito, em coesão territorial/social e no esbatimento das assimetrias regionais”, o investimento “tem que ser repartido”. “Foram alegadas razões financeiras mas essas questões serão sempre de alguma subjectividade porque, no país inteiro, na actualidade, temos sectores que acumulam dívidas em cima de dívidas, com vários milhões de euros, como a Carris, o Metro, a Infraestruturas de Portugal, o que significa que se as mesmas medidas fossem aplicadas a todas as empresas encerrá-las-íamos a todas”, explicou.
Memórias da Linha do Tua
A reabertura do espaço museológico, um projecto que já estava a ser preparado há três anos, que se insere no Plano Estratégico de Desenvolvimento de Bragança (PEDU), com a reabilitação do edifício existente e a duplicação da área expositiva, sendo agora duas centenas de peças, veio também avivar as memórias de quem trabalhou e tratou, por vários anos, os caminhos-de-ferro por tu. Valdemar Pais, natural de Salsas, no concelho brigantino, foi o último funcionário no núcleo museológico. Em Bragança trabalhou mais de 20 anos mas ao serviço da CP esteve mais de 45. Com 77 anos, recorda que ainda viajou nas carruagens que agora são apenas uma lembrança. “Ainda hoje me sinto com paixão pelo caminho-de-ferro, foi a coisa mais rica que me podiam ter dado. A Linha do Tua e os comboios fizeram muita gente amiga e a prenda que deram ao povo foi fechar linhas”, relembra. Voltando à noite em que, em jeito de segredo, vieram levantar as máquinas e carruagens, ditando o término da linha, Valdemar Pais conta que “primeiro trouxeram umas trailers e deixaram-nas à entrada da cidade” e, depois, ele e os colegas foram mandados para Lisboa para que não dizer nada ao povo, “se não o povo não deixava levar as máquinas”. Já José Carlos André, de 72 anos, foi revisor. Para a CP trabalhou mais de 20 anos, 12 dos quais em Bragança e acredita que a linha, “nem que fosse para fins turísticos, nunca devia ter acabado”. Lembrando que “havia muitos estudantes que viajavam entre Mirandela, Macedo, Sendas e Bragança” recorda que eram outros tempos mais vivos, numa altura em que não havia camionagem.
A maioria do espólio que o espaço alberga já estava na cidade mas houve algumas peças que foram trazidas de outros núcleos através da Fundação Museu Nacional Ferroviário. Entretanto, a estação ferroviária deu lugar, em 2004, à actual estação rodoviária.
A Linha do Tua, com mais de 130 quilómetros de extensão, ligava Foz Tua, na Linha do Douro, a Bragança. O investimento foi de cerca de 923 mil euros, financiado em perto de 50% por fundos comunitários, candidatado à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Norte (CCDR-N).
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