Entrevista

“Um presidente da câmara tem que fazer um trabalho árduo, sachar o que tiver que sachar para obter boa sementeira”

Manuel Rodrigo tem 61 anos, é engenheiro electrotécnico e foi professor nas Escolas de Miranda do Douro e Sendim. Já foi presidente da autarquia entre 1997 e 2009 e regressa agora com a promessa de potenciar os sectores que considera mais importantes no concelho, a agricultura, o comércio com Espanh

05 jul. 2017, 11:11

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Manuel Rodrigo tem 61 anos, é engenheiro electrotécnico e foi professor nas Escolas de Miranda do Douro e Sendim. Já foi presidente da autarquia entre 1997 e 2009 e regressa agora com a promessa de potenciar os sectores que considera mais importantes no concelho, a agricultura, o comércio com Espanha e o turismo. A fixação de pessoas em Miranda e a promoção da cultura e língua mirandesas são também prioridades do candidato.

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Débora Lopes /Teófilo Vaz

Oito anos depois, o que é que o faz regressar como uma espécie de D. Sebastião?

Eu não sou D. Sebastião nenhum. A minha vida foi sempre com Miranda e com os mirandeses. Depois de oito anos de interregno não resisti ao apelo que as pessoas me faziam, para voltar novamente à câmara. É pelo amor que tenho à minha terra, ao meu concelho e à minha gente, que decidi voltar a recandidatar-me para fazer mais e melhor por Miranda do Douro.

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Mas considera que a gestão destes últimos oito anos tem sido prejudicial para o concelho?

Eu penso que não foi feito aquilo que devia ser feito. Um presidente da câmara tem que fazer um trabalho árduo, sachar aquilo que tiver que sachar, para obter boas sementeiras. Acho que isso não foi feito, Miranda parou no tempo. O que eu lamento é que aquilo que foi feito durante os doze anos em que eu estive na câmara, infelizmente também sofreu algum abandono.

Quais são as prioridades do seu programa eleitoral?

Durante os doze anos que estivemos na câmara foi feita muita obra, a nível dos saneamentos, estradas, infra-estruturas, equipamentos, património, inclusivamente religioso, fez-se um trabalho enorme. Tivemos a sorte de aproveitar o quadro comunitário ao máximo e de ir buscar candidaturas onde parecia que era impensável ir buscar dinheiro. Fizemos esse trabalho e eu acho que agora é altura de nos virarmos para a obra social.

Infelizmente, em todo o nordeste, temos um índice populacional muito baixo, temos 15 habitantes por quilómetro quadrado. Há muito a fazer nesse aspecto, eu sei das carências que existem. Temos que apoiar as pessoas que são mais frágeis, como é o caso dos idosos, crianças e jovens. Medidas como o pagamento das propinas aos jovens, infelizmente não são muitos, que andam a estudar nas universidades, ou a comparticipação dos medicamentos aos idosos, são coisas que podem ajudar.

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Outra coisa que também deve ser mudada é, por exemplo, a nível dos licenciamentos municipais, acho que é urgente fazer com que as pessoas tenham os seus problemas rapidamente resolvidos, a nível dos contadores da água, etc. Acho que é desejável também apoiar as pessoas nos licenciamentos de obras, principalmente nas nossas zonas rurais, no centro histórico, onde as casas estão praticamente abandonadas, temos que criar um incentivo forte à recuperação desse património que está perdido.

Relativamente à fixação de pessoas, que medidas avança para que se recupere população mais jovem para Miranda?

A economia de um concelho é a parte que pode trazer gente para o nosso concelho e é isso que nós queremos. Queremos fazer isso, desde logo, com a constituição da equipa. Miranda tem muitas coisas que nós podemos aproveitar e potenciar. A língua, os pauliteiros, a gastronomia, os gaiteiros, há um sem número de coisas que podemos fazer, para atrair pessoas à nossa terra.

É isso que nós queremos fazer, não fazer só que as pessoas cheguem a Miranda e vão embora, mas que cheguem e fiquem o máximo de tempo possível. Tem que haver uma aposta muito grande no sector do turismo, mas também um incentivo muito grande à agricultura, porque eu não vejo que possa haver turismo sem agricultura, sem gastronomia, sem as raças autóctones. Portanto, um conjunto de circunstâncias que nós queremos e vamos poder com certeza, trazer mais pessoas a Miranda do Douro, assim como dinamizar aquilo que foi um grande impulso da economia, o comércio com Espanha.

No tempo em que era presidente da câmara, a pousada de Miranda foi retirada da rede nacional de pousadas e privatizada. O senhor considera que passados estes anos a experiência é positiva?

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A experiência é positiva. A pousada está a funcionar da mesma maneira, tem-se modernizado também. Infelizmente a Enatur abandonou ou vendeu ou privatizou aquilo. Na altura eu não queria mas foi uma política do governo porque infelizmente as políticas dos governos, são sempre de tirar e nunca trazer nada para o interior. Mas, felizmente, em Miranda hoje há na ordem de trinta casas de turismo rural. A nível hoteleiro, penso que somos o segundo ou terceiro concelho do distrito de Bragança, em número de camas. Na restauração também estamos muito bem servidos e, pelo que sei, há uma empresa multinacional que está a tentar fazer um equipamento hoteleiro de dimensão no concelho de Miranda.

Continua-se a arrastar um problema na ligação a Espanha, nomeadamente o IC5. Está decidido a intervir a este nível? E na própria comunicação com Bragança continua a ter que se vir por Espanha, a ligação à capital de distrito continua a ser precária…

Claro que temos de continuar a insistir para levar a água ao nosso moinho. Sabe que vai ser feita a ligação entre Quintanilha e Zamora por auto-estrada...

Tem garantias disso já?

Foi o que disseram os espanhóis. Outro dia estive com o alcaide de Alcanices e garantiu que essa ligação iria ser feita. Temos de ser realistas e eu defendo essa ligação pela fronteira terrestre sem haver nova travessia no Douro. Estou convencido que os espanhóis fazendo a auto-estrada de Zamora a Quintanilha, será fácil pressionar também o nosso governo para nos ligar a essa auto-estrada.

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Foram realizadas, nestes oito anos, obras de ampliação das capacidades produtivas das barragens de Picote e Miranda, mas que se saiba as compensações da EDP não são significativas. O senhor tem intenção de potenciar estas possibilidades?

A EDP tem que ter uma responsabilidade muito forte em termos do território de Miranda do Douro. Eu às vezes digo às pessoas de Miranda que quando foi inaugurado o museu da EDP em Lisboa, o senhor Presidente da República ria e estava feliz por esse acontecimento, e eu fiquei indignado como mirandês porque se gastam vinte milhões de euros em Lisboa, num museu, vão-se gastar outros vinte milhões num museu no Porto, e Miranda, como disse e muito bem, não tem compensação nenhuma, quando nós temos duas barragens e meia a produzir energia e a dar lucros fabulosos à EDP. Temos a barragem de Miranda, a de Picote e como sabe, parte da albufeira de Bemposta está no território de Miranda. Acho que nós, a partir do momento, que formos para a câmara, temos que reunir com as chefias da EDP, expor os nossos problemas, é uma obrigação da EDP compensar-nos por aquilo que nos tirou e que está a compensar todo o país.

Como é que avalia a situação financeira do município actualmente, tendo em conta os investimentos que têm sido feitos pelo actual executivo?

Infelizmente não vejo investimentos nenhuns. As poucas obras que foram feitas já estavam programadas e já tinham projectos aprovados da altura em que eu deixei. Agora vejo, realmente, ali muitas máquinas andar nas aldeias a espalhar alcatrão, mas é agora dois meses antes das eleições. Não sei, penso que isso será propositado para iludir os mirandeses. Mas quero-lhe dizer uma coisa: eu não sei qual é a situação financeira da câmara, sei do último empréstimo que pediram, um milhão e meio de euros, salvo erro, mas a mim a situação financeira não me preocupa.

Quanto aos transportes públicos, na generalidade dos casos as empresas que os exploram têm vindo a retirar-se do território e isso implica, muitas vezes, que as populações envelhecidas não têm condições de mobilidade…

Eu neste momento não tenho levantamento nenhum feito. Como sabe, ainda há transportes públicos no concelho de Miranda, até porque há os transportes escolares e os alunos têm que ser levados para a sede do concelho e ainda continua a haver os transportes públicos.

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E quanto ao sector do ensino, qual é a sua perspectiva para esta área em Miranda do Douro?

O sector do ensino acho que está bem. Só está mal por uma coisa, é que não há alunos. Há poucos alunos. As escolas do concelho fecharam todas, só está Miranda, Sendim e ainda a escola primária de Palaçoulo. Tanto quanto eu sei o agrupamento está a funcionar muito bem.

Ainda quanto ao ensino, houve uma aposta no seu tempo que foi a do polo universitário. Qual é a sua análise das razões para o encerramento?

Na altura fiz o protocolo que me chegou e eu abracei-o de alma e coração. Quando me disseram do encerramento do pólo universitário, eu tentei todas as soluções, inclusivamente, tentei junto da universidade de Salamanca haver uma parceria, para que o pólo de Miranda não fosse encerrado. Eu acho que foi uma perda, realmente muito grande, para Miranda, para o concelho de Miranda e não só, também para os concelhos limítrofes. Isto é muito preocupante, é sinal que temos uma população envelhecida, que não temos jovens para frequentar nem a escola primária, quanto mais a universidade.

E quanto ao Parque Natural do Douro Internacional considera que a gestão da área protegida tem sido eficaz e útil para os mirandeses?

Não. O Parque Natural foi sempre aquilo que eu pensei. Eu fui, como sabe, um dos grandes críticos do Parque Natural e continuo a ser. Eu dizia que o ICN era o Instituto de Complicação Nacional e que o parque nasceu para complicar e não para facilitar. As pessoas não cortam um carrasco só por cortar um carrasco, as pessoas sabem que têm que o limpar para manter o carrasco para dali a uns anos terem novamente lenha. Quando fazem um galinheiro numa zona do parque natural é porque querem ter alguma coisa para comer, que seja pura e estão a fazer aquilo numa questão de subsistência, para não irem ao supermercado. Eu acho que, de uma vez por todas, nós temos que debater esse assunto e a câmara tem que estar acima disso e ser quem decide, logicamente com o conhecimento e a autorização do parque.

Como é que vê a gestão que tem sido feita no sector agrícola em Miranda e que medidas avança de apoio aos agricultores?

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Nós temos que apoiar as raças autóctones. Temos a Raça Churra Mirandesa e a Raça Bovina Mirandesa, temos também os burros de Miranda. E aí temos de ter um papel de apoio total a essas organizações e aquele pagamento que se faz da taxa sanitária e que a câmara deliberou pagarem 50% os agricultores, eu acho que a câmara não faz nada de mais do que pagar a comparticipação total aos agricultores e incentivar as pessoas a dedicar-se à agricultura, a criarem os produtos de qualidade. Nós temos das melhores carnes do mundo, eu digo muitas vezes aos jovens que, se calhar, vivem melhor a tratar de um gado de ovelhas ou de vacas mirandesas ou de outro tipo qualquer, do que muitas vezes a viver no Porto ou em Lisboa, onde vivem em piores condições. Acho que a câmara tem um papel importante de dinamizar o empreendedorismo, fazer com que os jovens se fixem mais na nossa terra, mostrar que temos qualidade de vida e que eles são o futuro do concelho. Esse é o papel da câmara, de incentivar os jovens a viverem na terra onde foram nascidos.

Mas a raça autóctone, por exemplo a raça bovina mirandesa, não tem demonstrado capacidade para se expandir, está permanentemente sob ameaça…

Eu penso que não. A valorização está à mostra. Ainda me dizia há dois ou três dias o presidente da câmara de Vimioso que, na Suíça, se vende o quilo da posta da raça mirandesa a cento e cinquenta ou cento e sessenta euros. Eu sei que a raça mirandesa está a vender muito bem em todo o país, sei que a raça mirandesa tem um restaurante em Paris e que está a correr muito bem. Aquilo que eu dizia há bocadinho, é preciso incentivar também os jovens e mostrar-lhes, porque a mim mete-me muita impressão quando ouço jovens a dizer que nos concelhos do interior não há condições. Portanto, eu acho que temos que incentivar esses jovens e mostrar-lhes que vivem melhor com pouco aqui na nossa terra, do que às vezes a ganhar mais nos concelhos do litoral.

Para terminarmos, perguntava-lhe se ainda há muito a fazer pela língua mirandesa, ou já está tudo feito?

Não está tudo feito, eu acho que está pouco feito. Acho que temos que fazer cada vez mais. Mas a língua mirandesa não pode ser uma questão de tretas, porque nós dizemos que lérias não adubam sopas e às vezes perde-se muito tempo com lérias à volta da língua mirandesa e não se ataca fortemente aquilo que é o essencial: a divulgação, a promoção, o falar o mirandês, o escrever em mirandês. Estou a fazer um desafio às pessoas que se têm dedicado mais à língua mirandesa, para nos darem propostas e soluções, para realmente tornar a língua mirandesa a segunda língua oficial de Portugal. Nós vamos auscultar aqueles que têm opinião e que têm trabalhado ao longo dos anos e reunir para ver o que é melhor para a língua mirandesa.

Se quiser deixar uma mensagem ao eleitorado de Miranda…

A mensagem é que os mirandeses têm que escolher entre dois candidatos que já estiveram na câmara. Têm que escolher entre quem realmente se dedicou ao concelho, fez obras, acho que dinamizou o concelho e quem, na minha simples opinião, não fez esse trabalho. Portanto eu confio em Miranda e nos mirandeses.

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