Entrevista
“Depois de quarenta anos de governação PSD/CDS nós dizemos que há outro caminho”
Júlia Rodrigues, veterinária, actual deputada na Assembleia da República, é a candidata do Partido Socialista à câmara de Mirandela. Aos 45 anos propõe-se pôr fim a um ciclo de governação municipal, de quatro décadas, em que os socialistas estiveram sempre na oposição.
Júlia Rodrigues, veterinária, actual deputada na Assembleia da República, é a candidata do Partido Socialista à câmara de Mirandela. Aos 45 anos propõe-se pôr fim a um ciclo de governação municipal, de quatro décadas, em que os socialistas estiveram sempre na oposição.
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Teófilo Vaz / Débora Lopes
Quatro décadas decorridas sobre o poder autárquico democrático, o Partido Socialista ainda nunca chegou ao poder em Mirandela, que é um dos dois concelhos onde o PS nunca esteve no poder. Encontra explicações para que isto aconteça?
Realmente Mirandela, assim como Carrazeda de Ansiães, nunca foi uma câmara ganhadora do Partido Socialista e portanto o slogan que nós temos nesta candidatura é “há outro caminho”, ou seja, depois de quarenta anos de governação PSD intercalada com o CDS, nós apresentamos um caminho diferente, um caminho inovador, em que a prioridade central são os mirandelenses. Vamos ter oportunidade de explicar o nosso projecto, que acreditamos vai melhorar a qualidade de vida dos mirandelenses, uma forma inovadora e ousada de chegar às pessoas, atentendo também a que as pessoas têm que confiar na mudança e que este outro caminho é o caminho por onde devem ir.
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Mas tem alguma explicação para que o PS ainda nunca tenha conseguido atingir níveis significativos no poder autárquico?
Obviamente há várias explicações. Julgo que existem uma série de factores que contribuíram para isso, desde logo uma citação que eu costumo dizer, existe uma forma de unir o partido, que é a chegada ao poder, existe em Mirandela a consciência de que o Partido Socialista é a nível nacional, até ao momento, o poder, que representa, também no interior, uma série de oportunidades e tem uma visão diferente dos anteriores governos PSD/CDS. Portanto, julgo que existem aqui uma série de oportunidades para nós, desta vez, conquistarmos esta mudança e oferecer aos mirandelenses tudo aquilo que não tiveram ao longo deste anos e, por outro lado, retomar a centralidade que Mirandela teve num ciclo, com o Dr. José Gama, que colocou Mirandela no mapa e o nosso respeito por isso e também admiração.
Então considera que o legado de José Gama e de José Silvano é património importante de Mirandela?
Respeitamos sempre as pessoas que representam o nosso município. O nosso interesse é que Mirandela esteja bem representada e que toda a influência política que nós consigamos ter junto do nosso governo seja no sentido de melhorar as condições de vida dos mirandelenses, respeitando um passado que julgamos que foi mais próspero, até porque Mirandela representou e representa hoje em dia, mas com menos visibilidade mediática, uma cidade jardim, representou tudo aquilo que as pessoas gostam de conhecer num Portugal do interior e Mirandela tem uma paisagem natural fantástica, atravessada por um rio fabuloso e portanto, temos condições naturais que nos permitem ter projectos turísticos sustentáveis e por outro lado desenvolver o concelho todo, não só a cidade, mas também as nossas aldeias, as nossas freguesias, a nossa vila, que representa muito para esta candidatura.
O que é que não foi feito e deveria ter sido feito neste mandato?
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Eu julgo que não houve a preocupação com as pessoas, com os mirandelenses. Temos ainda algumas aldeias sem saneamento básico, o que é preocupante, temos algumas infra-estruturas rodoviárias que têm que ser construídas ainda. Mas existe um caminho, que neste momento nós estamos a apontar, que é a aposta em projectos sustentáveis, nomeadamente na agricultura, no turismo relacionado com a agricultura, com o agro-turismo, numa visão de futuro que este executivo não teve, pois preocupou-se, essencialmente em não fazer, em ir gerindo o município, tentando manipular algumas formas de pressão. Nós preocupamo-nos em criar postos de trabalho para os nossos jovens e, nos últimos quatro anos, temos muitos jovens casais que emigraram e eu falo no concelho de Mirandela, mas realmente por todo o país e no nosso interior temos essa desertificação. Mirandela tinha condições que outros concelhos, provavelmente não teriam para fixar pessoas, para fixar casais, para criar postos de trabalho, para fazer investimentos, para procurar investidores e para acolher os investidores de uma forma diferente daquilo que foi feito. Tenho reportado algumas situações de possíveis investidores que nem sequer foram recebidos pelo actual executivo e isso para mim é preocupante, porque não só me preocupa como deputada, que sou actualmente, mas também me preocupa pelo desenvolvimento do interior e se existe essa vontade de um investidor privado criar postos de trabalho, eu julgo que a função de qualquer presidente da câmara é estar ao lado, é acolher, é promover e é com isso que nós nos temos de preocupar é, realmente, ir à procura, não estar à espera que as coisas nos batam à porta.
Considera então que sectores como o turismo, a agricultura e a fixação de jovens, são áreas que precisam de mais desenvolvimento. Como é que pretende desenvolvê-las?
A agricultura é o sector do nosso distrito e por isso nós temos um projecto ambicioso, um projecto inovador. O nosso distrito é o que tem maior número de Indicações geográficas protegidas do país, temos alguns produtos de altíssima qualidade que estão a ser produzidos e não encontram local de venda. Isto é um ciclo vicioso, não se produz porque não há venda e não há venda porque também não se produz.
É preciso quebrar este ciclo, de maneira a concentrar os produtos das várias freguesias e depois, de uma vez por todas, ter um projecto sustentável para o nosso centro agro-alimentar, que vamos dedicar ao grande fundador, que é o Eng. Camilo de Mendonça, que há décadas atrás teve a visão para a região, para o distrito e, no fundo, conseguiu desenvolver vários concelhos, com planos de regadio muito bem elaborados e nós só temos que, décadas mais tarde, reconhecer esse trabalho e dizer que, realmente, ele estava no bom caminho e é por esse caminho que nós queremos ir.
Infelizmente foram tomadas decisões erradas de colocar empresas que não do sector agro-alimentar num complexo que tem um matadouro, uma queijaria e, portanto, era preciso proteger, porque todos nós sabemos que as empresas de resíduos têm que ter uma localização muito específica para não haver contaminações.
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Há uma proposta concreta, que avançou recentemente em Mirandela, na sua apresentação e que tem a ver com a recuperação do Cachão para uma zona industrial do agro-alimentar. De facto, parece querer recuperar a ideia de Camilo de Mendonça. Há condições ainda, do ponto de vista legal e da estrutura da propriedade do complexo, para que isso possa acontecer?
Desde que haja vontade política dos dois municípios, desde que haja um plano feito por fases e nós já o temos para que possa ser dinamizado. Há outros casos de sucesso destas situações no país, nós só temos que promover e fazer aquilo que tem que ser feito, que é, de uma vez por todas, não deixar ali aquela localização fantástica, que está tão perto de Mirandela, está no centro do distrito e pode ser, de novo, porque também há esta memória a respeitar, pode ser de novo uma forma de catapultar a agricultura com a transformação dos produtos da agricultura.
Mas isso implica um investimento muito significativo por parte das duas câmara que são detentoras do complexo.
Implicará um esforço financeiro, implicará sobretudo o empenhamento a candidaturas a fundos comunitários e nós temos aqui uma oportunidade que não podemos deixar fugir, porque existem fundos estruturais que podemos candidatar. Temos é de ter as nossas prioridades e a nossa é desenvolver a agricultura, desenvolver a agro-indústria e permitir que os nossos agricultores produzam e tenham onde vender. Julgamos estar em condições para fazer esse caminho com os produtores, para que tenhamos o azeite, as nossas alheiras, o vinho, os frutos secos, a cereja, o morango em mercados nacionais de referência e também além fronteiras.
Mas isso implica que haja investidores privados que se interessem e que coloquem as suas empresas no futuro complexo agro-industrial.
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Nada se faz sem esforço e sem vontade política, sem empenhamento e sem correr muitos quilómetros. É isso que tem faltado, é correr muitos quilómetros e abrir portas. Consideramos que é fundamental correr atrás de projectos, haver um empenhamento diferente, porque uma estrutura desta dimensão faria a diferença na região. Nós não podemos assistir a uma morte de infra-estruturas que custaram milhões e que actualmente estão completamente desprezadas.
Relativamente à barragem do Tua, perspectiva grande futuro para a albufeira e para os efeitos da albufeira ou já detectou problemas que possam afectar Mirandela?
Julgo que é uma oportunidade para Mirandela e também aí nós temos um projecto. A nossa estação de caminhos de ferro, que outros querem pôr à disposição para um hotel de charme e nós consideramos que a estação dos caminhos de ferro faz parte do património de Mirandela e dos mirandelenses e tem que ser um espaço aberto a todos, para que todos possam usufruir daquele espaço, quer os jovens, quer os mais idosos e que possa ser o nosso centro cultural, com toda a parte exterior envolvente nas traseiras da própria estação, que permite fazer uma Casa Serralves à nossa dimensão.
Há uma outra parceria em que a câmara de Mirandela participa, uma sociedade que é o Hospital Terra Quente. Considera que essa foi uma boa aposta ou é preciso rever a situação?
Relativamente a todas as questões directa ou indirectamente ligadas à câmara municipal e às parcerias que se fazem com privados, tem de haver aqui alguma cautela. O Hospital Terra Quente é uma mais valia para a cidade porque criou postos de trabalho e gere a dinâmica na cidade. Por outro lado, nós temos o hospital público, que serve as pessoas e que o privado pode complementar e deve complementar. Temos que distinguir bem o que separa um e outro. Desta forma, como é que o presidente do conselho de administração do Hospital Terra Quente, que é o presidente da câmara, por inerência, vai pedir mais valências para o hospital público ou pedir que o hospital público tenha mais qualificações, tenha mais serviços, tenha uma boa qualidade de serviço se ele próprio ou o município têm interesse e houve um investimento grande no hospital privado? Julgo que há aqui uma série de princípios que têm que ser muito bem avaliados. Sei, inclusivamente, que houve algum distanciamento relativamente a esta situação do Hospital Terra Quente e que o presidente da câmara também não tem tido a disponibilidade, infelizmente, porque ele deveria ter tempo para dar prioridade às pessoas e aos projectos e aquilo que me parece é que tem que haver uma distinção muito grande entre o que é público e o que é privado, e devem-se complementar e nunca serem concorrentes.
O IPB tem vindo a fazer apostas em Mirandela, nomeadamente foi recentemente inaugurada uma nova escola. Considera que isso corresponde às expectativas dos mirandelenses ou eles esperam ainda mais do IPB?
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Como é público, eu tenho uma admiração imensa pelo Instituto Politécnico de Bragança e pela forma como a direcção tem conseguido promover o instituto e para mim e para todos nós tem de ser motivo de orgulho no distrito porque, de facto, eles têm feito um caminho, dentro das instituições públicas, que nos deve orgulhar a todos. Esta questão da internacionalização, da investigação, da forma como os projectos têm sido conseguidos, dos alunos que temos conseguido trazer às nossas cidades, eu julgo que só pode ser de aplaudir, só pode ser uma forma de nós sabermos que podemos fazer bem e podemos ter sucesso se formos guerreiros, se soubermos ir à procura das coisas e o IPB tem feito essa função e tem feito esse papel e, de facto, só nos pode deixar orgulhosos do seu corpo técnico, dos seus funcionários, dos seus trabalhadores e também da direcção e também dos seus alunos.
Há uma proposta pendente para a instalação de um novo hipermercado. O que pensa disso? Vai ser a morte do comércio tradicional ou pode ser uma oportunidade de gerar emprego em Mirandela?
Relativamente à abertura do Continente, a câmara tem protelado essa discussão e acho que só vai dar o aval para depois das eleições autárquicas. Por outro lado, tem transferido as suas responsabilidades para a Associação Comercial e Industrial de Mirandela. Em relação às grandes superfícies há sempre duas opiniões que se podem formatar. Uma delas é que criam postos de trabalho. A verdade é que são postos de trabalho que vão concorrer com outros que existem noutras grandes superfícies. Por outro lado, na nossa cidade e dada a nossa dimensão, julgo que, se por um lado é bom que haja essa concorrência, porque os preços descem para o consumidor, por outro lado pode criar problemas, se não houver um investimento grande no comércio tradicional. A esse propósito nós temos um projecto interessante, que tem a ver com o estacionamento. Muitas das nossas lojas comerciais têm o estacionamento tarifado pela câmara municipal, que entretanto tem os parquímetros e tem alguma pressão, porque as pessoas comodamente vão aos hipermercados, não pagam estacionamento e nas lojas comerciais não existe isso. Nós queremos que quem compre no comércio tradicional tenha uma isenção no pagamento com uma ficha que o próprio comerciante dá ao cliente, para que ele possa ser isento, durante algum tempo, do pagamento do estacionamento. Acho que isso é fundamental, porque cria logo uma relação de excelência entre o cliente e a loja onde vai comprar e assegura também que as pessoas não tenham que deixar de ir ao comércio tradicional porque têm de pagar estacionamento.
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