Mãos que endireitam

Ter, 17/07/2018 - 09:58


Olá familiazinha!

Já só faltam cerca de três meses para eu completar 29 anos a animar a Família do Tio João e nunca me tinha acontecido, como na quarta-feira passada. Nesse dia trabalhei, das 6 às 8 da manhã, debaixo de uma grande trovoada, mas a emissão não foi abaixo, como tem acontecido sempre nestas situações.

Os nossos participantes iam relatando em directo o que se estava a passar nos locais de onde nos ligavam. Foi o caso da tia Fátima, de Viduedo (Bragança), que nos falou directamente da igreja matriz, onde tinha colocado o Menino Jesus à entrada da porta para afastar a trovoada. Também a tia Helena Romão e o tio Lita, de Caravela (Bragança), nos contaram, com lágrimas nos olhos, que a aldeia estava debaixo de uma chuva de pedras que durou cerca de 20 minutos, destruindo toda a produção agrícola e provocando inundações em muitas habitações.

Na sexta feira, dia 13, entrou a lua nova e troada. Será que vai estar 30 dias baralhada?

A tia Neves, de Nuzedo de Baixo (Vinhais), na sua participação, disse-me que andava engarrada com um exército e não sabia de onde diabo saíam tantos soldados!... Fiquei sem saber de que trabalho agrícola estaria ela a falar, até que me explicou que andava a arrancar as ervas daninhas, que são a maior produção agrícola deste ano.

No dia 11 faleceu o tio Carlos Frias, com 54 anos, um dos membros mais antigos da família, marido da nossa tia Barbarinha. Também o meu bairro ficou mais pobre com o falecimento da Antónia Campos, de 54 anos, vítima de doença. No espaço de um ano faleceu a sua mãe, o seu pai e agora ela, deixando um filho de 22 anos, entregue à vida. Paz às suas almas e os sentimentos às famílias enlutadas.

O casal Humberto Almeida e Vitória Romão festejaram as suas Bodas de Ouro Matrimoniais no passado sábado. Que continue o pão da boda.

Estiveram de parabéns Celeste Fidalgo (77), de Grijó (Bragança); Armindo Miraco (75), de Vinhais; Luís Rodrigues (42), de Viduedo (Bragança); tio Neca Gaiteiro (83), de Romariz (Vinhais); Paulo Coelho (31), de Castedo (Torre de Moncorvo); Regina Cordeiro (90), de Coelhoso (Bragança) e Rita (74), de Vale de Frades (Vimioso). Agora vamos conhecer melhor o meu tio “endireita”, António Lopes.

 

Embora eu tivesse sido criado com os meus avós paternos, sempre fui acompanhando as mãos habilidosas da minha avó materna, a avó Toninha, mãe do meu tio António Lopes, que dela herdou o dom de “endireita”, no mundo dos ossos e tendões. Numa destas tardes calorentas, em sua casa, o meu tio contou-me um pouco mais daquilo que faz com as suas mãos e pude assistir ao vivo e a cores a uma sessão de “endireita”. Vamos então conhecer melhor a arte do meu tio António.

“Eu tinha 16 anos e morava na vila, no tempo em que havia soldados e iam-se todos a ‘compor’ a casa da minha mãe, que não havia outra cá, naquela altura. A minha mãe aprendeu a ‘endireitar’ com o pai dela. É um dom que nasce com a gente. Nós somos oito irmãos e só eu é que herdei este dom que já veio do meu avô para a minha mãe e dela só veio para mim. Pode ser que amanhã ou passado ainda haja alguém, porque a família começa a aumentar e não sabemos o que vem aí.

Vê-se logo se é partido ou deslocado, com um pouco de imaginação consigo ver se a mão, o pé ou as costelas, por exemplo, estão fora do sítio. Quer dizer, para isso é preciso um pouco de imaginação do osso que está saído por baixo da pele, para eu o compor. Não vamos pegar num osso e dizer já está feito e vai-te embora!

Dantes só usava azeite puro porque escorregava mais. Hoje já há pomadas que são melhores que o azeite. No fim ponho álcool canforado que é para apertar os ossos e não os deixar sair do sítio. Ao fim de dois ou três dias pode-se retirar a venda que não tem problema nenhum de voltar a sair do sítio.

Quando é o caso de uma mão ou de um pé aberto, uso uma pele de bacalhau. Primeiro esfrego-a, bem esfregadinha para lhe tirar o sal e depois aplico-a seca no sítio e o próprio bacalhau é que vai curar o pulso, devido ao iodo que contém.

Faço berrar os guardas republicanos, os polícias e tudo! Normalmente dou-lhes três dias. Ao fim de três dias, se correr tudo bem, escusam de cá voltar. Se ainda houver alguma dorzita ou qualquer coisa, em vez de estar a moer, voltam cá, porque por vezes, em vez de ser só um, são dois males.

A minha filha mais velha, Cândida, já tem uma pequena vista para isto, mas não se interessa muito. Tem de se interessar mais para aprender. Já lhe dá o jeito pelo dom que herdou de mim, mas não quer.

O médico de família que eu tinha em França, mandava os seus pacientes à ‘casa dos Antónios’, pois a minha mulher também se chama António, mas pedia para que não dissessem que foi ele que os tinha lá mandado. E não chamo cá ninguém.”

Na verdade todas as pessoas que têm visitado o meu tio, dizem que se sentem muito melhor, graças às suas mãos que endireitam.