Formado na universidade do pastoreio

Ter, 03/10/2017 - 10:39


Olá familiazinha! Estamos no mês de Outubro e todas as manhãs muitos dos que nos ouvem estão à espera que o Tio João anuncie chuva.
O Magustão da Família do Tio João vai ser no domingo, dia 22 de Outubro, em Vinhais, que tem sido, por excelência, o melhor local para saborear as castanhas no maior assador do mundo.
Vamos dedicar este número a uma entrevista com o tio Delmino Ferreira, de 53 anos, que pertence à classe dos pastores da nossa família e que vive em Grijó mas é natural de Freixedelo, ambas do concelho de Bragança.

Há quanto tempo é que é pastor, amigo Delmino?
Pastor, pastor, só dedicado a esta vida, há 27 anos. Quando eu nasci já havia animais em casa de minha mãe, mas meus, há 27 anos que os tenho.

E com que idade é que tirou o curso de pastoreio?
Desde os 9 anos. Depois de fazer a 4.º classe saí da escola e, a partir daí, a minha vida foi quase sempre esta, fora o tempo em que estive na tropa e quase dois anos em Espanha.

E porquê pastor?
Sou pastor porque gosto disto, para ser pastor tem que se gostar. Às vezes dizem que os pastores não sabem fazer mais nada mas eu, graças a Deus, sei fazer várias coisas mas gosto disto, não sei se foi por ser criado com isto que tenho esta paixão. Mas para andar com elas tem que se gostar, não gostando, não vale a pena andar com os animais porque em qualquer profissão que tenhamos, temos que gostar daquilo que fazemos. Os animais é uma coisa que dá muito, muito trabalho, ninguém imagina o trabalho que isto dá, muito cansativo, tanto fisicamente como psicologicamente, mormente uma pessoa só. É muito complicado.

E diga-me, é guardador de rebanhos de ovelhas e cabras?
Sim. E das cabras fui campeão nacional este ano, no mês de Agosto, com a cabra preta de Montesinho, com os melhores exemplares desta raça que apareceram no concurso. Por isso é que agora vão para a Feira dos Gorazes (Mogadouro) para exposição. Esta raça de cabras pretas de Montesinho está em vias de extinção, mas eu fui-as mantendo, sempre com três ou quatro cabras no gado, destas antigas e agora já são para aí sessenta ou setenta cabras.

Mas além das cabras e das ovelhas, qual é o resto da sua equipa de trabalho?
Tenho seis cães de virar. Há uns anos apareceu-me um cão morto, que era um espectáculo de animal. Fiquei com os filhos dele, que são quem me ajudam. Agora não atiro uma pedra ao gado, tio João, porque os meus cães fazem aquilo que eu mando e vão eles virar o gado. Um cão bem ensinado faz o trabalho de três ou quatro pessoas que não dominam o gado tão bem como o domina ele só. Por incrível que pareça.

E o amigo Delmino Ferreira também faz criação desses cães viradores?
Faço, sim senhor. Agora até tenho uma cadelinha que é um espectáculo de animal. Está lá parida com cinco cachorrinhos, que nasceram no dia 20. Se você perguntar, quase todos os pastores da Lombada e daqui têm cães dos meus. Eu fui o primeiro pastor a tê-los, através de um cunhado meu, espanhol, que me trouxe uma parelha de cães, fez no dia de S. Bartolomeu 25 anos.

Então e diga-me, quantas cabeças é que são ao todo, entre ovelhas e cabras?
À volta de quinhentas. Faltam pouquinhas para as quinhentas, meia dúzia delas é o que pode faltar... Eu não gosto do gado contado, mas faltam pouquinhas, pouquinhas.

E um pastor vive bem daquilo que faz?
Hoje, tio João, não dá para juntar dinheiro. Mas dá para viver, porque eu formei duas filhas só com o gado. Uma é gerontóloga e a outra primeiro tirou análises clínicas e depois tirou anatomia patológica, e tudo saiu daqui.

Mas na vida de um pastor também há dias difíceis. Como é nos dias de chuva, de neve ou de trovoada?
É o que eu lhe disse há bocadinho. É uma vida muito difícil e muito desgastante, mormente agora no Verão, como por exemplo este ano que não há comida. É uma vida muito desgastante, tanto fisicamente como psicologicamente. Eu tenho que me levantar uma hora mais cedo do que os outros pastores, por causa de mugir as cabras, por volta das 4:30 da manhã.

Ai também aproveita o leite…
Eu estava a estragar muito leite e comecei a dá-lo durante algum tempo a um casal amigo, até que me disseram que assim não era justo e propuseram-me fazerem o queijo a meias, metade para mim e metade para eles e lá nos temos entendido, mas eu antes de sair mujo sempre, sempre as cabras.

Então é uma vida cheia de muito trabalho e de muitos horários também. Tem de se andar a horas e o seu relógio é o relógio delas…
Não se pode olhar para o relógio. Quem andar com estas crias tem de parar o relógio...