Emigrar não é pêra doce

Ter, 08/08/2017 - 11:49


É Agosto e, para muitos Portugueses, as melhores semanas do ano com a família. Aldeias inteiras na região transmontana enchem-se de vida. É como uma segunda primavera a florescer na região, não de plantas, mas de pessoas. Colegas de escola, que não se vêem há anos, encontram-se, com os respectivos filhos, netos, sobrinhos e sobrinhas. Isto não é novo, acontece já há 20, 30 ou 40 anos. Ainda assim, é diferente do que era então.
Agosto é, também, o momento em que os emigrantes fazem jus, pela aldeia tranquila, ao seu carro novo, colocando os motores a trabalhar a meio da noite, por forma a que os cães comecem a trabalhar na rua e as galinhas fiquem com medo. É o tempo em que se espera que um (dos emigrantes) vá ao café local e pague uma rodada. É uma festa, que pode levar semanas, até que o último emigrante regresse a casa.
Seguramente que a vida longe de casa era bem mais difícil há 40 anos do que nos dias de hoje. Sem Internet, e-mail e televisão por satélite, estar num país estrangeiro era estar ainda mais longe de casa do que é hoje. Mesmo um telefonema do estrangeiro para Portugal custava uma pequena fortuna! As auto-estradas também não eram desenvolvidas como são hoje e, durante 10 ou 20 horas, a viagem tinha de ser feita sem ar condicionado. Assim sendo, ser emigrante era bem mais difícil outrora do que é hoje em dia.
Na Suíça, no final de maio de 2017, residiam no total 2040000 estrangeiros (319000 de Itália, 305000 de Alemanha, 27000 de Portugal), 6000 Portugueses são considerados residentes de curto prazo, menos de 12 meses, 70000 Portugueses têm uma autorização de residência B e 193000 têm uma autorização de residência C. E para complicar um pouco mais: 4400 Portugueses naturalizaram-se, nos últimos 12 meses, na Suíça. Têm, agora, também um passaporte suíço, além do passaporte português, e já não estão incluídos nas estatísticas dos estrangeiros residentes. 270000 são mais do que os que vivem no Porto. Cerca de 1120000 Portugueses vivem em França. E cerca de 80000 Portugueses na Bélgica. E cada um tem uma história única - são sempre caminhos muito individuais que os levam a outros países.
Aqueles que acreditam que é pera doce ser emigrante nos dias de hoje, enganam-se. Pelo contrário! Há 40 anos, a emigração estava associada a uma garantia de sucesso financeiro; contudo, nos dias de hoje já não é assim. Mesmo sem muita formação, mas com proactividade e eficiência por um lado e a vantajosa economia por outro, com, cinco, dez ou 20 anos, era possível poupar dinheiro. Também os aumentos salariais anuais bem acima da taxa de inflação eram a norma. Com a globalização esses benefícios para os Franceses, Alemães e Suíços - e, portanto, também para os imigrantes que emigram para essas regiões - deixaram de existir. A introdução do euro e a eliminação de ganhos cambiais agravou os efeitos deste cenário. E para os avós foram muito importantes valores como honestidade, limpeza, pontualidade, fiabilidade, proactividade e trabalho árduo - todas as qualidades que ajudaram os Portugueses nos mercados de trabalho na Alemanha, França e Suíça no passado – aos Portugueses de hoje que, com graus e diplomas, emigram como professores ou enfermeiros, isso não é suficiente.
E se olharmos para Portugal, é ver quem apanha castanhas e azeitonas. O que, outrora, faziam os Portugueses, hoje, é feito pelos Polacos, Estonianos e Lituanos, e a preço mais barato. Mas isso é verdade não só em Portugal mas também na agricultura e na indústria em França, Alemanha, Suíça e Inglaterra. E essas pessoas têm diplomas universitários, são professores e enfermeiros, e muitas vezes falam duas ou três línguas.
O que resta é a expectativa dos Portugueses, que permanecem em casa, à espera que os seus regressem a casa com malas cheias de dinheiro. E os Portugueses no estrangeiro experienciam esta pretensão de justiça, mesmo que se torne praticamente impossível. Claro que existem excecções e golpes de sorte, mas também não é para todos ser um gruista e subir mais 40 metros sobre um edifício com 250 metros.
Se é injusto se os Portugueses, que ficam em Portugal, apenas têm respeito pelos emigrantes que construíram riqueza. Todos os emigrantes, que financiam as suas vidas com virtudes dos portugueses, como honestidade, limpeza, pontualidade, fiabilidade e proactividade, merecem o mesmo respeito.
Está inteiramente nas mãos das pessoas que ficam nas suas terras que o mês de Agosto permaneça o que era: as melhores semanas do ano com a família. Um mês em que aldeias inteiras na região transmontana se enchem de vida e florescem, que festejam durante toda a noite e que a felicidade impera porque a família está reunida. A vida já é suficientemente dura como emigrante. Medir o sucesso numa comparação com as gerações anteriores é injusto para todos; aos de outrora foi difícil algo que para os mais novos está facilitado, mas não se pode construir uma ideia sobre o sucesso financeiro do “antigamente”.

Maria Irene Teixeira Hostettler