Animar as gentes com o “esfolador de beiços”

Ter, 18/07/2017 - 10:16


Olá familiazinha! Nesta última semana a temperatura subiu e não há novidades no que diz respeito ao líquido precioso vindo do céu. Por isso agora, nos escritórios da terra a maior preocupação é a rega, embora nalguns lugares a água já comece a escassear, como constatei na conversa com a tia Teresa, dos Alvaredos, do concelho de Vinhais que nos disse que as torneiras que existem na aldeia para a rega das hortas já estão fechadas por falta de água, mas nas habitações não falha. Claro que agora a agricultura está sedenta de água vinda do céu. Vamos esperar melhores dias, mas como diz a pastora tia Maria da Glória, de Vilar-Seco (Vimioso) tem chovido muito, mas é testa abaixo.

É bom saber que ultimamente alguns tios e tias da família do tio João já são assinantes do nosso jornal. Esperam pela quarta-feira para receber o Nordeste em sua casa, para estarem a par das notícias da nossa região e guardarem religiosamente a página do tio João, como nos contou tia Francisca Afonso, de Rebordãos (Bragança) que agora, com os seus 89 anos, é que tem tempo e ainda vista, graças a Deus, para ler o nosso semanário de uma ponta a outra e passar uma tarde bem passada. Uns puxam pelos outros e tenho a certeza que futuramente mais membros da nossa família vão ser assinantes.

Estamos preocupados com o nosso tio José Abílio, da Especiosa (Miranda do Douro) que há uns dias foi atropelado na sua aldeia e depois de ter estado no Hospital de Santo António, no Porto, está agora no Hospital de Bragança. Toda a família está a rezar por ele e que Deus nos ouça.

Hoje vou falar-vos dos nossos artistas do povo, mais propriamente dos tocadores realejo ou “esfola beiços”.

Quem escuta o nosso programa de rádio sabe que a única música que ouve é a feita em directo e ao vivo por quem nos telefona. Além das conversas diárias com os ouvintes, alguns rezam, cantam e tocam alguns instrumentos musicais, aos que chamamos artistas do povo. O primeiro artista do povo foi o nosso tio Físico, de Outeiro, que fez uma música para a família: “tios e tias desta região vamos lá falar para o Tio João”. Temos tocadores desde bandolim, viola, guitarra, piano, órgão, gaita de foles e também acordeão, concertina e realejo. Mas é o “esfola beiços” (harmónica) que é a rei.

Ao longo dos anos temos feito anualmente, no programa, a semana do realejo e raro é o dia que não temos uma “gaitada”. São muitos os tios e também algumas as tias que dominam o instrumento. Dos primeiros realegistas da família foi o tio Luís Pires, da Paradinha de Outeiro, hoje conhecido por tio Luís modinhas, que também pertence à classe dos “cantoneiros”, pois canta que encanta. Aqueles que actualmente mais nos tocam são o tio Artur e o tio Cassiano, de Carviçais (Torre de Moncorvo), o tio Domingos Meirinhos, de S. Martinho de Angueira (Miranda do Douro), o tio António Maria, de Genísio (Miranda do Douro), o tio Fontenete, de Vila Boa (Bragança), que tem um instrumento que parece a roda de um tractor, composto por seis realejos. Mas também o tio Horácio, de Rio Torto (Valpaços), o tio Delmino Vaz, de Grijó (Bragança), o tio Agostinho, de Paredes (Bragança) que nos toca em direito de La Rochelle, na França, António Machado, de Parada (Bragança), que festejou os seus 70 anos na passada segunda-feira, entre muitos outros que estão sempre dispostos a compartilhar essas bonitas melodias. Nenhum destes artistas aprendeu uma única nota musical do “tamanho de um comboio” mas, com o ouvido e hábito de tocar, tornaram-se verdadeiros artistas. Começaram quase todos quando eram jovens a tentar tocar e a dedicar-se ao realejo.

Antigamente os bailes que se faziam nas aldeias eram feitos com este instrumentos. Em qualquer lugar dava para bailar e muitos já sabiam que se tocassem tinham o par assegurado, pois todas as moças dançavam com o tocador, que tinha que dominar a gaita com uma mão e a dama com a outra. Contaram-me também que se faziam grandes bailes e destes resultavam alguns casamentos.

Que todos tenham muita saúde para nos continuarem a deliciar com as suas gaitas.