O que eu não ouvi

Assisti, com alguma curiosidade, ao debate dos candidatos à presidência da Câmara de Bragança. Curiosidade porque não é todos os dias que ouvimos um escol como este (em tese, as pessoas que melhor pensam Bragança na actualidade a ponto de os Partidos delegarem neles competências para a gestão da “Res Municipalis”) teorizar sobre o futuro de Bragança. Mas em vão. Não descortinei qualquer proposta que ultrapassasse a gestão corrente. Fiquei sem saber se a ideia que têm da governação é a da “navegação à vista” ou se, ao jeito de D. Duarte, guardam para ulterior momento a sua “Lei Mental”. Gostava, no entanto, de ter ouvido propostas novas e gostava ainda mais de ouvir a sua discussão. Mas nem o facto de terem à disposição um fórum privilegiado os motivou a apresentarem o caderno de encargos de uma eventual futura governação. Não havendo respostas ficam, pois, as perguntas, ciente, no entanto, que no decorrer da campanha eleitoral algumas serão respondidas.
- Que diriam os candidatos à hipótese de exploração arqueológica das galerias que minam a zona da Cidadela? Se calhar temos uma galinha dos ovos de ouro turística e não sabemos. (Só saberemos se ela puser.)
- Que diriam os candidatos à criação de um parque de estacionamento para camiões TIR com todos os apoios logísticos à camionagem? Captava-se a mais-valia de ter a camionagem à porta que doutra forma só se vê passar. Era a criação de uma Bragança B com toda a visibilidade que isso dava a Bragança. Além disso livrávamo-nos dos camiões que agora vemos estacionados pela cidade. E temos mais que uma hipótese de localização, coisa que Mirandela, Vila Real ou Zamora não têm.
- “Envidarei todos os esforços para transformar os claustros da Sé na sala de visitas de Bragança”. Supondo que esta declaração era proferida por um dos candidatos como seria a reação dos restantes?
- O negócio da castanha vale aprox. 64 milhões de Euros. Vemo-la ir levando com ela a mais-valia da transformação. (Podemos queixar-nos de ficar tudo no litoral quando aquilo que podia ficar cá para lá o mandamos?). Seria descabido que a Câmara liderasse um processo de congregação de todos os que têm a sua actividade ligada à castanha no sentido de ser feita cá a sua transformação? Aos candidatos, que comentário isto lhes mereceria?
- A Adega Cooperativa é obsoleta, já pertence à arqueologia industrial e é hoje um empecilho urbanístico. É, no entanto, um activo importante com toda aquela área de construção. Mas a única forma de a remover dali passa pela Câmara que, com o seu capital de confiança, poderá conseguir a anuência dos sócios. Resumindo: seria o dois em um. Em troca de uma área degradada uma urbanização moderna e em troca de uma adega desactivada uma adega moderna, na zona industrial, capaz de reactivar o sector vinícola. Que diriam a isto os candidatos?
- A Cooperativa da batata de semente tem há muitos anos os seus armazéns desactivados. O seu logradouro é, em termos Pantagruélicos, o lombelo das áreas urbanizáveis. Também aqui, como no caso da Adega Cooperativa, só a Câmara conseguirá a sua deslocalização para terrenos baratos. Os activos financeiros remanescentes (que deveriam ser consideráveis) deveriam ser aplicados no fomento da cultura da batata de semente que eu, francamente, acho um crime Bragança não fazer. Temos know-how, temos terrenos e temos mercado. Repare-se: no distrito, os terrenos com essa aptidão agrícola, que por questões fito-sanitárias têm que ser de cotas altas, só se encontram em Montesinho, em Nogueira e na Coroa; o mercado salda-se por 120 toneladas só em Bragança, que é o que compramos aos Holandeses. Imagine-se o Distrito! (Não podemos estar sempre à espera do subsidio.)
Não sei qual é a opinião dos candidatos mas gostava que isto sensibilizasse o candidato ganhador.
- Será que o Santuário da N. Srª da Serra só pode ser santuário permanente por dez dias? Não poderá ser alargado esse período? Não poderá ser o ano inteiro?
Qual seria a resposta dos candidatos?
- Não é a Câmara novata em matéria de turbinagem para produção de energia elétrica. Tem os empreendimentos do Alto Sabor e a mini-hídrica de Gimonde. Não poderia então ser o pivot de parcerias com privados, Juntas de Freguesia ou Comissões fabriqueiras no sentido de transformar os moinhos em produtores de energia eléctrica? Que apreciação fariam disto os Candidatos?
Não são as obras pagas a pronto aquelas que mais entusiasmam. Essas, qualquer novo-rico faz. Bonitas são aquelas pagas em prestações de solidariedade, de cumplicidade como se todos nelas estivéssemos envolvidos.
--E m Bragança há muito por fazer e não são sempre as obras megalómanas e/ou iluministas que trazem com elas mais bem-estar, postos de trabalho ou mais retorno. A título de exemplo, se me permitem a imodéstia, falarei de um projeto que candidatei ao “Orçamento Participativo”. Tratava-se de um campo de golf a instalar no lameiro do Albergue e na Quinta da Trajinha. Essas duas propriedades agrícolas estão praticamente desactivadas. Como são do Estado seria fácil à Câmara conseguir um protoloco de utilização. Além disso a manutenção seria de baixo custo pois só a zona do “green” é que seria regada. Seria uma obra barata, passou na malha do “Orçamento Participativo”, que traria alguma dignidade a uma entrada de Bragança e permitiria aos Bragançanos jogarem o golf possível.
Não é brandindo Rankings, que colocam Bragança nos Tops em várias apreciações, que convencemos alguém ou nos tiram as dúvidas. Que maravilha de Cidade é esta que não consegue atrair ninguém e nem os seus consegue segurar?

Manuel Vaz Pires