Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Gaspar Fernandes Pereira (n. Mogadouro, 1690)

Gaspar Fernandes Pereira nasceu em Mogadouro por 1690. A sua mãe, Maria Lopes, era irmã inteira de Gaspar Lopes da Costa. O pai chamou-se Manuel Lopes Dourado(1) e era natural de Freixo de Espada à Cinta. 
Manuel Lopes Dourado foi casado em primeiras núpcias com Ana Martins e o casal teve pelo menos 5 filhos, meios-irmãos de Gaspar. Um deles chamou-se António da Fonseca, o qual emigrou para o Brasil, onde se tornou lavrador de mandioca, na região do rio de S. Francisco. Irmãos inteiros, teve apenas um, que se chamou Francisco e faleceu ainda pequeno.
Nascido em Mogadouro, Gaspar cedo perderia a mãe. E, ficando órfão, dele tomou conta o tio e padrinho, Gaspar Lopes da Costa, atrás citado, que o levou para a cidade do Porto. Ali viveriam, mantendo estreitas relações com a família de Francisco Lopes Carrança, no seio da qual ambos haveriam de casar mais tarde.
Pelos 10 anos começou a trabalhar de “caixeiro” com o mesmo tio que, um ou dois anos depois, o mandaria para o Brasil, levando fazendas para vender. Foi dirigido e à responsabilidade de Clara Lopes, viúva de Domingos Pereira que se encontrava instalada, com seus filhos, em uma roça nos Campos da Cachoeira, recôndito da Baía. De seguida tornou-se “caixeiro” da mesma Clara Lopes e seus filhos. 
A chegada de Gaspar ao Brasil terá acontecido em 1702, a crer no testemunho de seu meio-irmão António da Fonseca que o foi visitar e com ele, terá passado 2 ou 3 meses.
Permaneceria Gaspar pelas bandas da Cachoeira uns 10 anos, regressando ao Porto e a Lisboa por 1712, para casar com Branca Teresa, filha de Francisco Lopes Carrança e Maria Gomes, que entretanto deixaram o Porto e foram para Lisboa. Ali encontrou também Gaspar Fernandes o tio, agora também seu cunhado, Gaspar Lopes Costa, e feito “passador” de judeus para Inglaterra. Vejam, a propósito, uma cena que o nosso biografado contaria, em 1726, para os inquisidores:(2)
— Há 13 anos em Lisboa, junto ao Cais da Pedra, em uma fragata, na qual foi a bordo de um navio, em companhia de seu sogro e cunhado Gaspar Lopes da Costa (…) e em uma quinta diante do convento de Nª Sª da Graça, indo para Penha de França, se achou com Brites da Costa, cunhada e sogra dele confidente, filha de Francisco Lopes Carrança.
Afinal quem era a sua mulher e quem eram os seus sogros? Expliquemos. Branca Teresa, filha de Francisco Lopes Carrança, terá falecido pouco depois e não consta que tenha deixado qualquer filho. E ficando viúvo, Gaspar Fernandes viria a casar mais tarde com uma sobrinha da falecida mulher,(3) filha de sua irmã Brites da Costa e de Gaspar Lopes da Costa, seu tio e cunhado e depois seu sogro. Caso exemplar de endogamia! Mas este casamento aconteceria apenas anos mais tarde.
No estado de viúvo e contando cerca de 24 anos, Gaspar Fernandes embarcaria novamente para o Brasil. No ano seguinte, encontrar-se-ia no sítio do Papagaio, “distrito das Minas Gerais de S. Paulo”. Sim, que a febre do ouro começava então a alastrar pelo Brasil. Mas ele não era mineiro, antes continuou na atividade de “caixeiro”, agora ao serviço de Francisco Ferreira Isidro,(4) nas minas do Ribeirão do Carmo, morando na freguesia de N.ª Sr.ª da Oliveira.
Ontem como hoje, sempre houve dívidas difíceis de cobrar. De uma dessas cobranças temos particular notícia, dada por seu irmão António Fonseca que o acompanhou pelo Rio de S. Francisco para o interior do Brasil.
Assim se explica que ele viajasse pelos sítios mais diversos da Baía a S. Francisco, das terras de S. Paulo às do Rio de Janeiro, das Minas Gerais às Minas de Ouro Preto ou do Serro Frio ou do Ribeirão do Carmo… entre 1715 e 1720, contactando a mais diversa gente, nomeadamente da etnia hebreia, como registou Anita Novinsky.(5) 
Regressaria a Portugal por 1720 e certamente trazia uma bolsa com grossos cabedais, o que lhe permitiu tomar de arrendamento o assento da província do Minho. Nesse mesmo ano terá casado com Josefa Teresa da Costa, atrás referenciada, a qual, no ano de 1723, lhe deu uma filha que batizaram com o nome de Beatriz. 
Para além do pagamento dos ordenados e fornecimento de géneros às tropas estacionadas na província do Minho, Gaspar Fernandes tomou também a cobrança das rendas da comenda de Algoso, o que lhe exigia dispor de 2 contos e 800 mil réis em dinheiro contado, que era o montante que tinha de pagar à cabeça e correspondia a um ano de renda.
Para além do assento do Minho e da comenda de Algoso, Gaspar era mercador e vendia coisas tão diversas como baetas, serafinas e outras fazendas, papel ou pimenta, não faltando “peças de Ruão”. Assim se explica a vida de andarilho entre Lisboa, Porto, terras do Minho, Vila Real e Mogadouro. Onde ele não faltava era na feira de S. Mateus, em Viseu. E não ia apenas à feira, antes alugava uma casa em que ficava instalado por uma boa semanada.
Contava 35 anos quando o meteram nas masmorras do santo ofício de Lisboa. Começou por confessar que foi iniciado no judaísmo por Gregório da Silva Henriques, na Cachoeira. Depois alterou o depoimento dizendo que foi instruído logo aos 7 anos por seu tio Gaspar Costa, continuando Clara Lopes o mesmo ensino. 
Por 15 meses ocupou as celas da inquisição, saindo penitenciado em cárcere e hábito perpétuo no auto de 13.10.1726, juntamente com sua mulher. Meio ano depois, ambos escreveram uma carta conjunta ao inquisidor geral pedindo licença para comungarem. O parecer dos inquisidores foi negativo e a razão principal foi esta: 
— Toda a sua família, assim que saíram no auto, se ausentaram para Inglaterra e se presumia que eles o não foram também por estar prenha a mulher. 
Posto em liberdade, ele não fugiu, antes se meteu no negócio do tabaco, com o estanco em Benavente. Ali o vamos encontrar em 21.12.1728, na igreja da Senhora da Graça, a ratificar o testemunho que em tempos dera sobre o seu irmão António da Fonseca, agora preso na inquisição de Lisboa.(6) Terminamos com uma das orações que Gregório da Silva Henriques lhe ensinou:
 
Poderoso grande Senhor
hacedor de cielo y terra
del mundo gobernador
buelve como buen pastor
las ovejas a la sierra
y las que hubieren comido
apártalas del rebaño
socórrelas gran Dios
donde no hagan daño.
Yo como oveja perdida
a tu ganado dexé
mas vuelve Señor a mi
de nuevo dama la vida
como al cordero humanado
Abraham por tu mandado 
a Isaac su hijo amado
el brazo teniendo levantado
la pancada dar quería
cuando su majestad
há visto su corazón limpio e
[sano
envio hun ángel cortesano
que descendesse 
e le tibiesse a la mano
si alguna nueva divina
[clemencia.
Dámela por perdonado 
líbrame de Satanás
e de su malas cuestiones
como libraste a Daniel
del lago de leones.
Líbrame de Satanás 
y del poder del demónio
como libraste a Susana
de aquel falso testimonio.
Líbrame de Satanás 
y de su poder fecundo
como libraste a Noé
en aquela arca del diluvio.
Señor, pequei
Y sempre estou pecando.
Havei misericórdia de mim, 
ajudaime, encaminhaime,
abençoaome y perdonaime.
 
 
Notas e Bibliografia:
1 - Domingos Lopes Dourado e Maria Fernandes Dourado, avós de Gaspar, foram moradores em Urros, concelho de Torre de Moncorvo. Para além de Manuel Lopes Dourado o casal teve uma filha chamada Maria Lopes que casou com António de Morais, ferrador de profissão. E tiveram outro filho, chamado Domingos Lopes Dourado, cirurgião como o pai, que foi casado com Maria de Andrade e morador em Escalhão. - ANTT, inq. Coimbra, pº 6181, de Maria Lopes; pº 4199, de Domingos Lopes Dourado.
2 - ANTT, inq. Lisboa, pº 8777, de Gaspar Fernandes Pereira.
3 - IDEM, pº 8783, de Josefa Teresa da Costa.
4 - ANDRADE e GUIMARÃES – Os Isidros, a saga de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo, ed. Lema d´Origem, Porto, 2012.
5 - NOVINSKY, Anita – Inquisição Rol dos Culpados Fontes para a História do Brasil sec XVIII, ed. Expansão e Cultura, Rio de Janeiro, 1993.
6 - ANTT, inq. Lisboa, pº 10484, de António da Fonseca.

 

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães