NÓS, TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Francisco Gabriel Ferreira (n. Madrid, 1678)

Dias depois do auto da fé de 13.2.1667, onde seu pai saiu sambenitado e certamente com receio que o prendessem, Gabriel Ferreira Henriques apresentou-se na inquisição de Coimbra, onde o ouviram e mandaram em paz. (1) 
Dois anos depois, foi preso pelo mesmo tribunal, saindo apenas em fevereiro de 1673. (2) Posto em liberdade, rumaria a Espanha onde, por 1678, teve um filho de uma mulher cuja identidade se ignora. Enjeitado pela mãe e contando uns 4 anos, Francisco Gabriel Ferreira foi trazido pelo pai para Freixo de Numão, onde se criou, em casa de seu avô, Francisco Ferreira Isidro.
Da mãe, não saberia o nome e ao pai nunca mais o veria, pois logo se abalou para o Brasil, de onde não mais vieram novas. Em Freixo, seria o tio António Henriques Alvim que mais perto estaria e o introduziu na lei de Moisés.
Seria curta a permanência de Francisco em Numão, antes parecendo viver em deslocações constantes por este Portugal afora, conforme se depreende de suas declarações. Não se estranhará, assim, que fosse casar a Portalegre onde um primo paterno trazia arrendado o contrato da distribuição do tabaco, empregando vários parentes nos estancos.
Clara Fonseca se chamou a sua mulher, também nascida fora do casamento, uns 9 anos mais velha que ele, e que apresentava um estatuto empresarial digno de registo: negociante de sedas e chocolateira. Apresentada embora como filha de pai incógnito, este chamar-se-ia Domingos Fernandes Corcho, originário de Pinhel e assistente em Portalegre, também contratador do tabaco e de uma família extremamente rica e importante.
O casamento aconteceria antes de 1698, altura em que o casal se encontrava já com residência estabelecida no Porto, onde lhe nasceram duas filhas: Violante Maria, que casou com Manuel Pinheiro Nogueira, fabricante de meias de seda, natural de Freixo de Espada à Cinta e Mariana de Alvim, ou Fonseca, que casou com Luís Miranda de Castro, contratador de tabaco em terras do Alto Minho.
Seria uma família abastada, que tinha ao serviço de casa pelo menos duas criadas. Uma delas chamava-se Isabel Francisca, natural de Barcelos que os serviu por 2 anos e depois foi servir para Miragaia. A outra chamava-se Joana e havia 7 anos que saíra e fora servir para casa de um padre “mestre de capela da Sé”.
Em 24.7.1724, aconselhada pelo padre a quem fora confessar-se, Francisca dirigiu-se a casa de Francisco de Melo, familiar da inquisição, denunciando os antigos patrões, num extenso rol de práticas judaicas, acrescentando que Joana podia confirmar tudo.
Chegada uma carta de F. Melo a Coimbra, os inquisidores mandaram o comissário Carlos da Rocha Pereira ouvir judicialmente as duas criadas. A primeira repetiu e acrescentou as denúncias. A segunda “perguntada miudamente, respondeu muito pouco e ao mais respondia que não sabia, ou o contrário do que vinha articulado” – conforme escreveu o próprio comissário, acrescentando:
- Lhe dissera que, acabando o contrato em casa do mestre da capela, fazia conta de tornar para casa dos denunciados.
Embora houvesse apenas uma denúncia e algo suspeita, os inquisidores mandaram prender Francisco, Clara e a filha Mariana, que na casa paterna vivia enquanto o marido andava por Viana no trato do tabaco. (3)
No próprio dia em que foi entregue em Coimbra, Francisco começou a confessar as suas culpas e denunciar correligionários, tornando-se o seu processo num impressionante estendal de informações sobre famílias de judaizantes, não apenas do Porto, mas de meio Portugal, nomeadamente de Trás-os-Montes e Beiras. Ao ler este processo, fica-se com a impressão que Francisco conhecia todo o mundo, que andava bem informado - uma verdadeira central de informações de judaísmo. Perante os inquisidores, Francisco desdobrou a vidinha de muita gente, em especial rendeiros e contratadores, gente de trato grosso e muitos cabedais.
O caudal de informações despejado foi tão grande que parece ter entupido os canais na mesa da inquisição. Imagine-se: no decurso do seu depoimento, Francisco contou que fizera duas viagens à Inglaterra e à Holanda. Normalmente uma tal confissão provocava um nunca mais acabar de perguntas. Pois, nem sequer uma pergunta lhe foi feita acerca do assunto! Dir-se-ia que a curiosidade dos inquisidores estava completamente satisfeita.
Homem de muitos contactos, em sua casa, no Porto, Francisco acolhia gente da maior importância e proporcionava a realização de eventos, os mais estranhos, como este:
- Há 7 anos (…) Brites Pinheira casou em casa dele confitente, por intervenção de sua mulher Clara da Fonseca, foi dotada com quatrocentos mil réis por Gabriel Lopes Pinheiro (…) e tem por certo que como observante da mesma lei, se lhe procurou o dote, o qual dote lhe veio entregar no dia do seu recebimento o médico Gaspar Dias Fernandes, (…) o qual é tio do mesmo Gabriel Lopes Pinheiro… Francisca Alvim, que era a dotada…
Gaspar Dias Fernandes é personagem central da narrativa de Francisco que o acusou de vários “crimes” como o de violar os segredos da inquisição trocando cartas com um irmão que estava preso na cadeia de Coimbra. E também o acusou de exportar clandestina e ilegalmente capitais pertencentes a gente fugida da inquisição. Veja-se um caso concreto:
- Neste inverno passado, Fernando Lopes da Costa, advogado de Trancoso, vendeu uma quinta que tinha na Anobra, termo de Coimbra (…) não sabe por quanto, mas sabe que todo o dinheiro da dita venda se entregou ao médico do partido, Gaspar Dias Fernandes (…) para o fim de o dito médico lho pôr seguro no Norte.
Gaspar Dias pertencia ao círculo de pessoas de relações mais estreitas com Francisco Gabriel, círculo onde se incluía João Lopes da Silva, natural de Trancoso e Salvador Mendes Furtado, de Bragança, contratador do tabaco. Aliás, na sua denúncia, Isabel Francisca disse que eles se juntavam frequentemente nas casas de uns e outros, deixando entender que faziam reuniões em sinagoga.
Uma família cuja vida aparece no estendal de Francisco é a dos Lotas, de Bragança. E entre as várias denúncias feitas contra eles, há uma em que o denunciante parece mais empenhado no sequestro de bens de António Mendes Álvares, Lotas, que os próprios inquisidores. Com efeito, tendo o Lotas fugido para Inglaterra e tendo a receber perto de 5 contos de réis, de rendas na comarca de Lamego, procurou que alguém lhos cobrasse, nomeadamente o nosso biografado que “lhe tratou dele em algum tempo”. Pois, não querem saber que ele foi contar aos inquisidores a existência de tais dinheiros, justificando que Maria Josefa, a mulher do Lotas, entretanto presa na inquisição “não daria tal dívida ao inventário”, com o que a inquisição perderia uma boa receita.   
Os medos da inquisição assombravam o Porto e, naturalmente, havia muitos que fugiam. Também nesse particular as denúncias de Francisco são significativas. Uma respeita a Brites Pereira, mulher de José Rodrigues Gabriel, originários de Bragança e moradores no Porto, a qual pediu “a ele confitente lhe quisesse pôr a dita moça, Maria, em Braga, em casa de Duarte Pereira D´Eça, estanqueiro, porque se temia das prisões do santo ofício, pois o pai da dita moça tinha notícia estava de presente preso…”
Outro caso sucedeu com uma filha de Francisco Rodrigues Brandão: dormiu uma noite em sua casa e “por razão de não ser presa” foi levada para Valença, por seu genro, Luís de Miranda Castro.
Como “judeu” e “passador de judeus” denunciou particularmente um primo seu, que então foi preso. Vejam:
- Seu primo, Henrique Vaz de Oliveira, em vários tempos, tem dado ajuda e favor a cristãos-novos para passarem para Castela e França fugindo às prisões do santo ofício, como foi há 14 anos a família de Fernando Lopes que fugiu do Porto, e também presume que o dito seu primo Henrique Vaz de Oliveira é circuncidado, não por que tenha ouvido falar nisto, mas pela grande assistência que o mesmo tem feito em Bayonne de França. Aonde tem uma irmã e um tio profitente da lei de Moisés e aonde ia muitas vezes.
Impossível focar os múltiplos aspetos do processo de Francisco Gabriel. Chocante que, para além dos factos e das provas que apontava, ele até “presumia” culpas, como se fora um inquisidor. Mas há uma declaração deveras interessante. Depois de dizer que como judeu, não acreditava na Santíssima Trindade, “contudo sempre em seu coração teve grande amor à pessoa de Cristo Nosso Senhor como homem justíssimo (…) e continuadamente entre os seus erros tinha muitos despertadores que a sua consciência lhe punha”. Aqui está o drama dos marranos: viver em permanência com os despertadores da consciência. Muitos encontraram a saída desse drama no ateísmo e no livre pensamento. Tê-la-ia encontrado Francisco Gabriel Ferreira? Atente-se nesta última declaração que parece antecipar a tese da lei natural e do bom selvagem, proclamada pelos Enciclopedistas e pela Revolução Francesa:
- Teve sempre consigo o bem de que lhe parece vivia muito conforme a lei natural, ao menos fazia quanto podia.

Notas e Bibliografia:
1-ANDRADE e GUIMARÃES – Os Isidros, a epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo, pp. 89-98, ed. Lema d´Origem, Porto, 20012.
2-ANTT, inq. Coimbra, pº 9191, de Gabriel Ferreira Henriques.
3-IDEM, pº 9669, de Francisco Gabriel Ferreira; pº 3139, de Clara da Fonseca; pº 6475, de Mariana de Alvim (da Fonseca).
 

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães