Informação e responsabilidade política

Qua, 16/08/2017 - 10:34


É vulgar ouvir por aí que os órgãos de informação estão a perder credibilidade, que nem tudo o que se lê e ouve nos noticiários corresponde à realidade, que há sempre algo menos claro por trás do que se edita neste ou naquele jornal.

Não faltam teorias da conspiração, que pretendem encontrar razões de manipulação dos media nos poderes insondáveis da maçonaria, nos desígnios que se sopram nos bastidores das sacristias ou, mais simplesmente, nos directórios políticos, assessorados por reputados peritos do marketing, da sociologia ou da psicologia social.

Por vezes tais convicções aparecem suportadas em realidades impassíveis de negação, como acontece nesse exemplo estranho da democracia formal mais afamada dos últimos dois séculos e meio, os EUA. Mas, toda a América é um caldeirão fervilhante de surpresas, para mágoa da velha Europa, que olha para aqueles países como se de filhos seus se tratasse.

Realmente, a perplexidade tem quase petrificados muitos europeus, depois da chegada ao poder de Donald Trump, um histriónico, agarotado e potencialmente perigoso responsável último pela decisão de iniciar um conflito demolidor para a humanidade. Mas também não deixa de ser inquietante que, um pouco mais a sul, permaneçam no poder figuras de opereta boçal na Venezuela, na Bolívia, no Brasil, enfim, que nos trazem à memória vicissitudes de há meio século, quando generais de ombros dourados promoveram razias por aquelas paragens.

Serve a América para trazer à análise o papel que, de facto, pode ser pernicioso da informação quando não é orientada por princípios fundamentais da política, mas se enrodilha no manobrismo, na manipulação espúria, no servilismo miserável ou simplesmente na cobardia cívica.

Trump, Maduro e outros títeres nunca estariam a provocar arrepios ao mundo se a função de informar não estivesse, também ela, infiltrada por vermes que se rebolam no esterco infecto de sociedades decadentes, anunciando novos tempos de escuridão.

Apesar dos riscos que ameaçam os órgãos de informação, é possível manter a verticalidade e continuar o trabalho que já deu frutos na consolidação democrática. Mesmo quando alguns figurões, que se sonham a dar largas sem freio à sua sede de poder, acreditam que é possível tudo comprar e vender.

A responsabilidade política da comunicação social passa por contribuir para a construção livre e esclarecida das decisões dos cidadãos, proporcionando-lhes a informação sem rodeios e a contextualização possível dos factos, sempre com empenhamento na clareza e profundidade, que só a inteligência, a honestidade e a dignidade permitem.

É assim que, neste jornal, se faz o caminho todos os dias. Em momentos como os que se vivem, à porta de mais uma celebração da democracia, no próximo dia 1 de Outubro, com uma campanha eleitoral que pode ser fértil em distorções deliberadas, tentativas de demagogia palonça e festivais de chico espertismo, cá estaremos, serenamente, sem nos deixarmos impressionar pela aragem, mas, pelo contrário, procurando perceber e explicar o que vai, realmente, na carruagem.

 

Teófilo Vaz